Freud escreveu e 1915 o texto “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, o cenário da Primeira Guerra Mundial trazia para esse pensador muitas indagações, assim como sintomas em seus pacientes europeus.
Neste texto ele deixa transparecer algo que relativiza a ideia de uma absoluta impossibilidade de um registro qualquer de morte-própria no inconsciente.
Ele sugere que a extinção física do ser amado é capaz de inscrever algo da morte-própria diretamente no inconsciente. A morte foi prometida – e até garantida- ao sujeito pela palavra do outro, sendo em seguida, ratificada por suas próprias observações e pela elaboração de suas próprias experiencias de separação, sobretudo aquelas da morte dos seres amados.
Os aspectos amados do outro constituem o fundamento das identificações narcísicas. A constatação da possibilidade da morte do outro não é simplesmente algo de exterior, mas atinge o próprio núcleo da constituição do eu. Isso evidencia o valor e importância das relações, morrendo, ou se afastando(separação) eu sinto dor, percebo minha finitude e isso nos abala e desampara.
A primeira parte do texto, intitulada “A desilusão da guerra”, começa curiosamente por um argumento semelhante ao que Freud mais tarde utilizaria em “Psicologia das massas e análise do eu” para explicar a essência do pânico como ruptura dos laços libidinais; por sua brutalidade e por sua loucura, a guerra traz a desilusão da nossa fé na possibilidade de uma relação culturalmente estruturada entre os homens, ela “corta todos os laços”. Freud sublinha a dimensão de desabamento das ilusões ligada à guerra nisto que ela revela uma pesarosa verdade fundamental. A guerra evidencia uma realidade à qual preferiríamos nos subtrair:
“Acolhemos as ilusões porque os poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçam contra ela.” Pg315
Freud não diz que a guerra revela a realidade da morte-própria mas, antes, que ela desvenda uma ilusão. A guerra teria assim paradoxalmente, um efeito de verdade, colocando o homem em contato incontornável com a realidade insuportável da violência e da morte.
No segundo relato é ainda mais explícito que se chama “Nossa atitude para com a morte”, nele Freud propõe a ideia de que a violência da guerra acarreta “a perturbação de nossa atitude para com a morte, tal como a mantínhamos até então”, que a guerra a morte é anunciada e varre o tratamento convencional da morte, o descaso e destruição visível de pessoas banaliza a vida e é um aspecto psicopatológico do pânico. A devastação de corpos e pessoas é grande potencial para o terror e pânico.
O sujeito em pânico parece estar em um face a face brutal com “a morte”, sem saber, no entanto, o que é e onde situa-la. Ele busca, então, torna-la presente, experimenta-la como forma de dominá-lo a de algum modo. O aparelho psíquico visa superar o caráter de espera e de passividade ante este perigo terrível mas irrepresentável.
Assim podemos concluir a partir de Freud que nas situações extremas como a guerra ou quando de um ataque de pânico, o sujeito nada acrescenta a seu conhecimento a respeito de sua própria morte. Simplesmente ele descobre nela algo de fundamentalmente negativo e inapreensível que se apresenta cruamente com inegável e incontornável.
Freud termina esse artigo falando um adágio: ”se quiser suportar a vida, organiza-se tendo a morte em vista.” Essa organização tendo a morte em vista implica que se aceite a existência de uma dimensão em face da qual o aparelho psíquico está irremediavelmente desamparado, que está no futuro e é irrepresentável, apesar dos modelos provisórios que lhe temos emprestado ao longa da nossa existência.
Freud vai ao ponto de sugerir que a primeira tarefa do vivo é justamente a de suportar sua própria vida.
O ataque de pânico é isso, surge no desamparo e na não representação do futuro por um ego assustado e fragilizado. As guerras atuais, assim como instabilidade social, doenças e imprevistos estão sendo um terreno fértil para personalidades sensíveis e pouco preparadas para a dor, terem como sintomas: ataques de pânico. Uma boa elaboração e representação abranda o desamparo.

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