Mas por quê? Se tudo ia “tão bem”… A crise o surpreende como algo vindo não se sabe de onde, em um momento da vida em que, pelo menos aparentemente, a pessoa não passava por nenhum problema maior.
Em sua impossibilidade de atribuir um sentido para a sua experiência, o sujeito encontra-se perplexo e teme enlouquecer. A despeito de sua violência, a crise é passageira, o que não a impede de deixar resíduos: O medo do surgimento de novas crises leva o sujeito a adotar uma série de medidas protetoras, tais como se afastar de suas atividades rotineiras de trabalho e estudos e se recusar a sair de casa sozinho, o que acaba por limitar significativamente a sua vida cotidiana.
Além do medo de ser surpreendido por uma nova crise, o sujeito é atormentado pelo temor de que, se isso ocorrer, não será socorrido por ninguém, como se no mundo não houvesse pessoas confiáveis com quem pudesse contar em momentos de necessidade. Diante do sentimento de não ser reconhecido como objeto privilegiado de amor, o sujeito tem urgência em voltar para casa e para junto das pessoas mais próximas.
Mesmo sendo um tema que aparece nas últimas década em destaque, após a Pandemia cresceu, o interesse da psicanálise por essa modalidade de sofrimento psíquico não é recente.
Antes de 1900, Freud trabalhou com a noção de neurose de angústia, categoria nosológica que seria compartilhada entre psicanálise e psiquiatria até a sua substituição pela nova categoria de “Transtorno de Pânico” em 1980.
Uma das formas de apresentação dessa neurose seriam os acessos de angústia, cuja descrição apresentada por Freud muito se assemelha àquela que os manuais diagnósticos atuais atribuem aos ataques de pânico. Para este autor, as crises de angústia ocorreriam sem nenhuma representação associada ou, em outros casos, acompanhada das ideias de extinção da vida ou loucura iminente, podendo também estar ligada ao distúrbio de uma ou mais funções corporais, levando o paciente a queixar-se de “espasmos no coração”, “dificuldade para respirar”, “inundações de suor”, dentre outros sintomas semelhantes. (Freud, 1895[1894] /1996, p. 96).
Nos pacientes acometidos pela Síndrome do Pânico pode ser observada a exacerbação de manifestações corporais(suor, respiração rasa, tremores, sessão de morte iminente, terror, dormências…) em contraponto a uma pobreza psíquica, manifesta, sobretudo, em sua dificuldade para estabelecer as associações necessárias ao processo de análise, dificultando a reconstrução da história de seu sofrimento.
A Síndrome do Pânico pode ser entendida como a fase aguda de uma neurose. Na origem dessas manifestações encontra-se “antecedentes de medos infantis, cujo detonador é deslocado, mas que guardam alguma conexão com o objeto fobígeno da infância”. (Sigal, 1997, p. 74).
Segundo a autora, nem sempre apreendemos os signos que desencadeiam um processo associativo que permitam ressignificar alguma manifestação psíquica da sexualidade infantil transformada em angústia.
Comumente, as reações fóbicas geram medos que reativam situações traumáticas anteriores sem a possibilidade imediata ou aparente de encontrar os elos, pois devido ao recalcamento, um afeto pode estar falsamente conectado a uma representação correlata daquela que foi previamente recalcada.
Na esteira de Sigal (1997), podemos dizer que há sempre na neurose um elemento atual na deflagração manifesta. Assim, “os sintomas que permanecem no corpo, as descargas neurovegetativas, as sudoreses, as palpitações, podem ser desencadeadas por uma palavra, uma lembrança, um cheiro, uma cor, ligada a determinadas representações reprimidas”. (Sigal, 1997, p. 79).
A compreensão das manifestações de pânico, temos o efeito do recalcamento que separa o afeto da representação, contudo, esse afeto não encontra um novo objeto a que possa se vincular, levando ao surgimento de uma angústia abrupta e transbordante que invade o eu e provoca uma série de sintomas corporais. Na ausência das representações, não é possível ao sujeito nesse momento realizar as associações que poderiam conduzi-lo à origem de seu sofrimento, de forma que ele só consegue repetir o relato das crises que o acometem.
É possível que a partir desse estado o sujeito possa construir uma fobia, na qual a angustia possa se dirigir a um objeto substituto passível de ser evitado. Isso com toda a certeza revela que pessoas acometidas pela síndrome do pânico, as fobias e rituais através dos quais o sujeito tenta manter-se a distância de novos ataques já constituiriam uma tentativa de reequilíbrio do psiquismo e de representação psíquica.
Além disso, a vinculação do afeto a uma representação permite que a partir disso se estabeleçam associações que gradativamente poderão conduzir à origem do conflito e a sua resolução.
Podemos compreender a Síndrome de Pânico como um estado afetivo ocasionado pela situação de despreparo do aparelho psíquico diante da invasão de um enorme afluxo de excitação que o atacaria repentinamente.
Essa situação resultaria da ruptura de uma estrutura libidinal que até então mantinha a estabilidade do aparelho psíquico, deixando o eu a mercê de uma grande quantidade de energia pulsional desligada frente a qual ele não dispõe de recursos para lhe oferecer contenção.
O momento de desencadeamento das crises de pânico, o marco inicial do início da “doença”, tem uma forma de apresentação clínica bastante constante. Em geral, o indivíduo relata que conseguia levar sua vida de forma satisfatória até então mantinha relações afetivas estáveis, sentia-se bem em seu próprio ambiente.
É muito comum que essas pessoas tivessem tido bom desempenho profissional e que, frequentemente, ocupassem cargos de responsabilidade com competência e sucesso. Isso pelo aspecto exterior de suas existências, dificilmente alguém prognosticaria o desenvolvimento de sintomas tão brutais.
Porém alguns eventos pré-mórbidos aconteceram no cenário da vida desses antes da Crise de Pânico ou Síndrome: perdas precoces em suas existências, de pessoas muito significativa do ponto de vista afetivo, como alguns irmãos, pais ou parentes: avós, cuidadores. E quando crianças já apresentavam medo de sair de casa desacompanhado, ir para a escola, atravessar ruas e avenidas, de se afastarem da mãe e conhecidos. Ou seja, a personalidade fóbica é a mais vulnerável a Síndrome de Pânico.
As queixas de inibições e conflitos sexuais não são raras, isso não é identificado no início do tratamento psicoterapêutico.
As discussões atuais a respeito dessa e de outras psicopatologias são fortemente influenciadas por um discurso biologizante – forjado pela psiquiatria e sustentado pelos avanços das neurociências – que propõe que essa síndrome seja resultado de uma alteração sutil e invisível no funcionamento cerebral, para a qual o tratamento medicamentoso se mostra eficaz.
Nesse discurso, muito bem acolhido pelo público e reforçado pela mídia, não haveria muito – ou talvez possamos dizer nenhum – espaço para o sujeito, com sua história e sua vida psíquica, assim como para as contribuições de outras áreas do saber, como a psicanálise, na construção do estatuto psicopatológico próprio dessa enfermidade.
Muitos psicanalistas concluem que é sim na história de cada paciente que devemos procurar os elementos que nos permitirão compreender o seu sofrimento.
Nos pacientes acometidos pela síndrome do pânico, a violência da força pulsional que ataca o aparelho psíquico é tão grande que causa a sua desorganização e a falência de sua capacidade representativa.
Diante desse desafio, é necessário que o analista crie recursos analíticos alternativos para prosseguir. É necessária, em um primeiro momento, a promoção de vias para o escoamento e esvaziamento da tensão, o que, como sugerido por Schwartzman (2004), pode ser conseguido através do incentivo ao paciente a repetição do relato sobre a eclosão das crises, o que, em alguns casos, pode demandar um grande número de sessões.
Além disso, a própria psiquiatria pode ser uma aliada do processo analítico, uma vez que a medicação pode oferecer a contenção desse excesso pulsional, permitindo certo nível de reorganização psíquica que propicie o desenvolvimento da análise. Vimos que, com alguns pacientes, após essa etapa de apaziguamento da tensão, torna-se possível a construção de uma cadeia associativa que conduza à origem do sofrimento e a sua resolução.
O processo de análise consegue gradativamente promover a sua reorganização psíquica e a construção de associações a partir das quais se torna possível a reconstrução da história de seu sofrimento, que acaba por evidenciar um conflito subjacente, possibilitando também a resolução desse conflito.
Referências:
Freud S.(1895 [1894] /1996). Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada “neurose de angústia”. In. FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. V. III. P. 89-118. (Edição Standard Brasileira).
Pereira, M. E. C., Pânico e desamparo. São Paulo: Escuta, 1999.
Schwartzaman, R. S., O conceito de recalcamento e a busca de uma metapsicologia para as novas patologias. In: CARDOSO, Marta Rezende (org.). Limites. São Paulo: Escuta, 2004. P. 127-150.
Sigal, A. M., Dialogando com a psiquiatria: das fobias à síndrome do pânico. In: Percurso. São Paulo, n°19, 2/ 1997. p. 73-82.


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