Estamos falando de grandes capitais, mas já vi pessoas em cidades do interior de Minas e São Paulo com muitos outros bichos: coelhos, patos, porcos, galinhas, cabras…as vezes algumas espécies todas juntas, o que desperta um cheiro insuportável para os vizinhos levando a denúncias em setores públicos, devido ao odor e insetos que esse acúmulo provoca.
Conheci na década de 90 uma pessoa que morou no Japão por 8 anos, voltou ao Brasil por parentes e pais doentes, mas esse retorno foi seguido de perdas significativas, a dificuldade da elaboração dos lutos, foi suprida pela saga em resgatar todos os cachorros abandonados do bairro e região onde ela morava virou o tema e sentido de sua vida. Abriu associação…
As famosas cachorreiras, geralmente omitem perdas, vazios, angústias, solidão e ansiedade e esse deslocamento aos animais evidenciam dificuldade de se relacionarem com pessoas e serem entendidas pelas pessoas que elas amam.
A temática de pessoas em situação de acumulação é muito complexa e os fatores desencadeantes são multifatoriais.
Tem um estudo que teve como objetivo identificar a frequência e distribuição do acúmulo compulsivo de animais e objetos em Curitiba, Paraná, a oitava maior cidade do Brasil. Foram coletadas todas as denúncias de acúmulo compulsivo registradas pelas Secretarias Municipais de Saúde, Meio Ambiente e Assistência Social entre setembro de 2013 e abril de 2015, e casos suspeitos foram investigados individualmente.
Do total de 226 denúncias, 113 (50%) foram confirmadas como casos de acúmulo compulsivo, representando uma taxa geral de 6,45 casos por 100 mil habitantes em Curitiba, dos quais 48 (42,5%) envolviam acumuladores de objetos, 41 (36,3%) acumuladores de animais e 24 (21.2%) acumuladores de animais e objetos.
O estudo chegou a várias conclusões: discurso das pessoas envolvidas no trato com os seus animais é comparável, por muitos, como se fossem dirigidos a um “filho”. É como se estivessem sendo questionados na sua função materna ou paterna, ou seja, como os pais podem aceitar que alguém os questione por não tratar seu filho de forma adequada.
Uma parcela significativa das pessoas “denunciadas” são mulheres, sem filhos, viúvas, separadas ou solteiras, com problema de inclusão social(sentiam-se diferentes e excluída de seu grupo, família ou sociedade),algumas acometidas de transtorno mental, vivendo sozinhas e em condições precárias de higiene e saúde, conjuntamente com os seus animais domésticos (cães/gatos), os quais são tidos por estas como a razão pela qual estão “vivas”.
Corrobora com essas ideias relacionadas ao lugar que os animais ocupam na vida dessas pessoas o trabalho de Nise da Silveira (1982). Ela faz referência às relações afetivas estabelecidas entre pacientes e animais, denominados de co-terapeutas.
Françoise Dolto (2001),faz referência a este vazio humano preenchido pelos animais, que acaba atenuando a solidão humana: “Bendito sejam os animais cuja espécie, amiga dos homens há milênio, é presença tranquilizadora, auxiliares nossos tanto no fardo do trabalho quanto nas coisas mais sutis que tornam pesada a solidão humana.” (Dolto, F. 2001, p.403).
“Quantos sofrimentos solitários do corpo e do coração eles ajudaram e ajudam ainda a suportar todos os dias, quantas penas e angústias secretas deixam que digam a seus ouvidos discretos donos e donas, jovens e velhos sem amigos outros, mendigos e milionários. Quantas vezes esses animais, que chamamos de domésticos, domaram a selvageria despertada no coração dos homens, abandonados pelo companheiro traidor ou pelo amigo desaparecido. Esses viventes de outra espécie, que não humana, fiéis, afetuosos, pacientes, que sabem ouvir, entender e dividir no dia-a-dia as tristezas e as mágoas dos homens”. (Dolto, F. 2001, p.403)
Alguns autores como Fenichel (1981) fala que estamos diante de uma situação traumática sempre que o estímulo for intenso quer pela violência quer pelo acúmulo de excitações que isoladamente não seriam traumáticas.
Isso significa que a vida em si mesma, com a globalização, socialização, desafios e cobranças de mudanças e adaptações constante são meio que demais para quem tem uma estrutura mais frágil, por isso que o refúgio é guardar coisas e objetos ou cuidar de animais, eles são submissos e cobram menos que os humanos. E ainda, tratando-se de animais ainda ganham a fama de heroínas, e pessoas boas.
Para acumuladores a vida é um estimulo intenso, além da capacidade de controle, é também uma situação subjetiva, isto é, há uma variação individual na capacidade de controle que, por sua vez, depende de fatores constitucionais e das experiências passadas.
Vivemos constantemente submetidos a “excitações de nossos instintos e pulsões” (Pierre Marty,1998, p.7) e as situações e vivências às quais estamos expostos constantemente ”atingem a nossa afetividade e desencadeiam excitações” (Pierre Marty,1998, p.7) que precisarão ser descarregadas ou escoadas. Segundo Pierre Marty (1998): “Podemos, globalmente, adiantar que, quando as excitações que se produzem em nós não se descarregam nem se escoam, elas se acumulam e atingem, cedo ou tarde, de forma patológica, os aparelhos somáticos” (Pierre Marty, p. 08).
Todo excesso esconde uma falta.
Referencias:
DOLTO, Françoise. Solidão, São Paulo: Editora Martins Fontes, 2001.
FENICHEL, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses, Rio de Janeiro – São Paulo: Atheneu Livraria, 1981.
MARTY, Pierre. Mentalização e Psicossomática, São Paulo: Casapsi Livraria e Ed., pp.55, 1998.


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