Ontem assisti o III Simpósio Brasileiro de Psiquiatria e Psicologia da Infância e Adolescência, atualizei os dados sobre TEA- Transtorno Espectro Autista; TDAH- Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade; Suicídio entre Crianças e Adolescentes; Uso exagerado e patológico da Internet, Celular, Jogos, Drogas, Pornografia…dados sobre Depressão, Ansiedade…Transtornos Alimentares…
Interessante que mais da metade dos Palestrantes fizeram menção, como sendo fator contribuinte ao cenário caótico, a falta de espiritualidade como condição preponderante dessas crianças, adolescentes e jovens.
Há uma associação do cenário psicológico e existencial: desesperança, confusão, vida sem nexo, tristeza, ausência de referências, desilusão e angustia: a falta de espiritualidade.
A espiritualidade poderia ser definida como uma propensão humana a buscar de significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal (Saad et al., 2001; Volcan, 2003).
Espiritualidade não é ter religião, uma vez que do ponto de vista antropológico e histórico as pessoas apregoam a elas, a religião, práticas e padrões que não acrescenta nada profundo ou significativo nas vidas delas. Isso sem contar as controvérsias sobre o que é fanatismo, rituais, fé cega. Muitas estão em uma religião por osmose, aquilo que foi apresentado pelos familiares, costumes locais, e até mesmo o país onde moram, nem entrarei nas implicações das guerras religiosas.
Convém definir neste contexto que a religiosidade e a espiritualidade, apesar de relacionadas, não são claramente descritas como sinônimos. A religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. A espiritualidade está afeita a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e significados (Saad et al., 2001; Powell et al., 2003).
Enquanto a religião está centrada na instituição e seus dogmas, repleta de leis e autoridade sob o comportamento, a espiritualidade tende a ser mais livre e singular, tendo sido mais desenvolvida na fé e na busca de respostas que levam a pessoa a compreender questões existenciais, ligadas ao sagrado, a sua existência frente a outras pessoas, frente a natureza, elevando o autoconhecimento….
Panzini e Bandeira (2005) dizem que vários estudos de saúde pública demonstram que pessoas que apresentam envolvimento religioso têm menor probabilidade de apresentar comportamentos de risco, como violência, delinquência e crime, o uso e abuso de substâncias que criam dependência como álcool e droga.
Além disso, a grande maioria dos usuários de serviços de saúde, avaliados em 350 estudos científicos, quer ser perguntada sobre sua espiritualidade e/ou suas crenças religiosas no contexto do cuidado à saúde (Connelly & Light, 2003).
Religiosidade e saúde mental
Em se avaliando a relação entre espiritualidade e saúde mental, as controvérsias e evidências científicas se intensificam ainda mais.
Em revisão narrativa de cerca de 850 artigos, publicados ao longo do século XX, incluindo artigos publicados após 2000 e a descrição de pesquisas conduzidas no Brasil, Moreira-Almeida et al. (2007) verificaram que maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico (satisfação com a vida, felicidade, afetos positivo e moral mais elevados) e a menos depressão, pensamentos e comportamentos suicidas, uso/abuso de álcool/drogas.
Hummer et al. (1999) foram os primeiros a demonstrar a correlação entre prática religiosa e redução da mortalidade por causa cardiovascular, mesmo após ajustes em análise multivariada para sexo, idade, educação, etnia e status social.
No entanto, no que concerne à adoção de hábitos de vida saudável, após os ajustes para todas as co-variáveis e estilo de vida saudável, a despeito da perda de significância, indiretamente reforça o papel da religiosidade/espiritualidade em mudanças de hábito de vida.
Interessante que ontem no Simpósio, uma das perguntas suscitadas pela assistência era sobre a ‘restrição’ de comportamento que algumas religiões apresentam como fator negativo para os jovens. De modo brilhante a Profa. Dra. Alexandrina Meleiro disse que se “quem não está em um caixinha entra em outra”, ou seja, quem não tem contorno pode ser diluído pela ausência de parâmetros, referências e a permissividade(‘ser livre’).
Vivemos mundo ‘Líquido” conceito de Bauman e essa pós-modernidade que trouxe com ela a fluidez do líquido, ignorando divisões e barreiras, assumindo novas formas, ocupando espaços diluindo certezas, crenças e práticas, será que isso está fazendo bem para nossas crianças e adolescentes? As estatísticas respondem.
Do ponto de vista psicanalítico o Pai, o que corresponde a Lei, ele participa na constituição subjetiva, a segurança interna e bem estar social. Para Lacan a metáfora paterna seria uma operação normativa no sentido de possibilitar a produção de normas. Operação esta que permite ao sujeito um manejo da falta que o atravessa, consentindo inscrevê-la e operar a partir dela.
Destituir o Pai Maior = Deus Poderoso e Criador é provocar internamente muita insegurança, ansiedade, desamparo e desespero. Escreverei sobre suicídio entre crianças e adolescentes.
Em uma sociedade cada vez mais hiperconectada, automatizada e com pouco espaço para incursões no universo do próprio indivíduo, a Espiritualidade pode ser um convite para que esses jovens estejam em contato com as próprias sensações, com os próprios recursos e com reflexões que estejam para além da materialidade, o que pode evocar respostas mais seguras e alinhadas a uma real promoção de saúde pela possibilidade de retorno ao que, de fato, os constitui.
Estamos na clínica atravessando a falta de sentido, o vazio e a desesperança. Onde se encontra um ‘Pai’ protetor e sábio? Um sentido? E esperança? Estude o livro sagrado mais perseguido da história da humanidade: a Bíblia. Ali está a resposta.
Um salmista muito querido, O Rei Davi, que desde novo desenvolveu uma relação pessoal com o Pai celestial escreveu: “Ó minha força…Deus é meu refúgio seguro, o Deus que me demonstra amor leal…Ele é aquele que me trata com amor leal, minha fortaleza, Meu refúgio seguro e meu libertador, Meu escudo e aquele em quem encontro abrigo.” (Sal. 59:17; 144:2)
Referência:
Connelly, R., & Light, K. (2003). Exploring the new frontier of spirituality in health care: identifying the dangers. Journal of Religion and Health, 42 (1), 35-46.
Hummer, R.A.; Rodgers, R.G.; Nam, C.B.; Ellison, C.G. – Religious involvement and U.S. adult mortality. Demography 36(2): 273-285, 1999.
Lester D, Walker RL. Religiosity Is a Protective Factor for Suicidal Ideation in European American Students but Not in African American Students. OMEGA- J Death Dying. 2017;74(3):295-303.
Moreira-Almeida.A.-Espiritualidade e Saúde; passado e futuro de uma relação controversa e desafiadora. Arch.Clini.Psychiatry,SP, 34,2007.
Saad, M.; Masiero, D.; Battistella, L. – Espiritualidade baseada em evidências. Acta Fisiátrica 8(3):107-112, 2001.
Oman, D.; Kurata, J. H., Strawbridge, W.J.; Cohen, R.D. – Religious attendance and cause of death over 31 years. International Journal of Psychiatry in Medicine 32:69-89, 2002.
Panzini, R. G., & Bandeira, D. R. (2005). Escala de coping religioso-espiritual (Escala CRE): elaboração e validação de construto. Psicologia em Estudo, 10(3), 507-516.
Wang Z, Koenig Harold G, Ma W, Liu L. Religious involvement, suicidal ideation and behavior in mainland China. Int J Psychiatry Med. 2015;48(4):299-316. doi: 10.2190/PM.48.4.e


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