Uma pessoa pode ser: Narcisista e apresentar além dessas características estruturas de personalidades diversas: Neurótico Obsessivo, Transtorno Bipolar, TDAH, Histérico, Perverso, Melancólico…porque começou antes da constituição de personalidade e suas estruturações edípicas.
Por mais arrogante e difícil, e as vezes até insuportável a convivência com um Narcisista essas pessoas, considero importante conhecer a dinâmica deles.
Joyce McDougall fala sobre o “encastelamento em si mesmo” que delimita um espaço impregnado de decepção e de desespero, por outro, é possível supor que esse ser frágil, à espreita de uma imagem de si mesmo duplicada, de um retrato, procura no espelho d’água um objeto perdido, diferente dele, um olhar. A imagem é distorcida do Self, o que eles demonstram e externo é falso.
O sujeito narcisista encontra satisfação no seu empobrecimento interior, pois entende que dessa forma ele é melhor, em função de ter conseguido, através de seu ascetismo, eliminar a dependência do objeto, para simplificar, das pessoas/relacionamentos. O ideal do eu desses sujeitos está impregnado por um desejo de renascimento, individualização, diferenciação.
Green em Narcisismo de vida e Narcisismo de Morte, ressalta que ao se colocarem longe dos apetites humanos, orais e sexuais, não pela sublimação, que implicaria sua aceitação, mas pela recusa, estão convencidos de sua superioridade sobre todos os mortais. Transigir padrões e código morais é prazeroso e virtuoso, eles não suportam a castração.
Conferindo destaque ao papel da pulsão de morte na estruturação da subjetividade, Green amplia a teoria freudiana do narcisismo, apresentando o conceito narcisismo de morte, uma modalidade de narcisismo defensivo que, por caminhar na direção dos desligamentos e retração nos processos de identificação, e ser marcado pelo desinvestimento objetal(vínculos) característico da dinâmica da pulsão de morte, leva ao desenvolvimento de um Eu frágil em sua estruturação, com dificuldade de simbolização e marcado pelo sentimento de perda da identidade, de desagregação e, principalmente, de vazio.
Esse quadro é apresentado pelo autor a partir da concepção da mãe morta, uma figura materna que, por algum motivo, não está viva o suficiente na relação com a criança, isto é, ela lhe confere os cuidados básicos, como alimentação, vestimentas etc., contudo não a investe afetivamente Green, 1988.
Acho fundamental ressaltar o sofrimento e fragilidade de bebes no período gestacional e como as mães se dividem já a uma 3 ou 4 décadas em posições múltiplas: arrimo financeiro, suas carreiras profissionais e acadêmicas.
O Eu da criança, sentindo-se impotente diante da mãe morta(ou muito ocupada, multitarefada…), esse infante procurará formas de se defender, desinvestindo, ele também, do objeto materno e passando a se identificar com o buraco vazio e irrepresentável deixado pela ausência do seu amor. Nesse sentido, pode-se afirmar que o narcisismo de morte é um narcisismo ferido, marcado pela dor psíquica decorrente da falta de investimento psíquico, ou seja, para não sofrer se fechou.
Tenho minha tese sobre a emancipação feminina e a delegação do papel materno. Corroboro com Winnicott, já que para ele a mãe, na medida em que dá suporte às necessidades básicas de seu bebê, assegura a este a possibilidade de se relacionar com os objetos e assim fazendo, possibilita ao bebê a ampliação de seu mundo real. Esse é um processo que marca o início da separação do eu e do não eu, onde o objeto vai constituir o símbolo da união bebê/mãe.
No geral os sujeitos narcísicos são sujeitos que tem na figura do objeto/mãe uma grande identificação e idealização e tanto a cumplicidade quanto a sedução são atribuídas à ela.
Há uma forte relação de dependência com a mãe, dependência ambivalente, que são deslocados para todos os outros objetos. O recuo para o mundo interno pode ser uma das tentativas de lidar com essa dependência, ou seja, o afastamento pode ser uma função reguladora que serviria como salvaguarda da identidade: uma forma de proteção contra uma ameaça de invasão do eu e a subsequente ameaça de desintegração.
A consequência dessa impossibilidade de obter uma experiência satisfatória precoce na relação sujeito/objeto pode levar o sujeito ao fracasso rumo ao Édipo genitalizado.
Isso é importante no sentido de pensar que se nesse confronto com a figura do objeto/mãe totalizante a possibilidade das etapas do auto erotismo e do narcisismo não puderem se instalar, o bebê estaria desamparado para lidar também com sua ausência. E, se tal ausência não puder ser atenuada pelo recurso à satisfação auto erótica, ela será dificilmente suportada.
O auto erotismo, conforme salienta Freud, vem em resposta à perda do objeto que antes dava garantias à satisfação, ou seja, é a partir dessa condição que a ausência toma toda a sua dimensão traumática pela impossibilidade do bebê de lidar com as vicissitudes das pulsões, e sua consequente fusão. A masturbação é típica do Narcisista.
Seja qual for o significado da relação primordial e da eventual fragilidade de ambas as partes envolvidas, a criação de uma representação de si mesmo remete-nos à necessidade imperiosa para o ser humano de transcender o hiato constituído pela diferença, exigindo que o fora faça parte do mundo interno em algum lugar do psiquismo.
Joyce McDougall sugere que “a ilusão de uma identidade pessoal” pode eventualmente suprir esse vazio. A identidade subjetiva, diz ela, é uma necessidade psíquica essencial, tão importante quanto a identidade sexual. E, sem dúvida, “há pessoas para quem a manutenção da imagem e da homeostase narcísica requer a utilização de defesas ou de relações que desempenham um papel vital” (1983, p. 117).
Aquele que busca salvaguardar o equilíbrio narcísico por meio de um arranjo particular em sua relação com o outro, ou afasta-se do mundo dos outros, vivido como uma ameaça para tão frágil equilíbrio, ou apega-se aos outros, demonstrando uma sede de objeto que só é saciada na presença daquele a quem incumbe a função de refletir a autoimagem fugaz.
Nesse caso, o que está em questão não é a amizade ou o amor entre o eu e o outro, mas a sobrevivência psíquica de um em face do outro. E perpetua a superficialidade e sentimento de solidão.
Referencias:
Green, A. (1988). Narcisismo de vida, narcisismo de morte.São Paulo, SP: Escuta.
Mc Dougall, J. (1983). Em defesa de uma certa anormalidade. Porto Alegre: Artes Médicas.


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