Importante dizer que nossa sociedade é um terreno fértil para o Narcisistas, já que eles estão bem próximos de nós, em nossa família, na roda de amigos, grupos que pertencemos e colegas de trabalho, além dos que a Internet e a mídia se encarregam de prestigiar e promover.
Além do verniz de sabedoria, bondade, cultura, bem estar e plenitude, escondem a necessidade de relações de apoio, suporte, transformação e desenvolvimento, uma vez que lutam contra suas ameaças existenciais: o vazio solitário, a invasão do outro e a impotência.
Em uma lógica ambivalente o outro aparece assim: ou ajuda ou atrapalha, ou é melhor ou pior que Eu, ou admiro ou sou admirado… Ou contribuem para o Ego ou será uma ameaça e a defesa é o descarte.
São pessoas que correram atrás de seus projetos, e se orgulham disso, já que absorveram todas as regras da cultura para serem ‘bem sucedidos’, pelo menos no que condiz: ler os livros que todos leem, irem conhecer todos os lugares catalogados socialmente e pautam seus roteiros de: viagens, filmes, cursos e Universidade, idiomas, alimentos, moda, conhecimento alistados como sendo ‘cult’ e ‘good vibes’. Modelados na configuração social imposta: Aquisições, imagem, prazer…casamento…
E tentam se encherem da ilusão de poder e superioridade. Importante ressaltar que Freud afirmou em Uma Introdução ao Narcisismo: ” o Eu não é senhor em sua própria casa.”
O drama atual é que o controle e estabilidade não existe nesse sistema, por mais que tenham atingido o topo, permanecer nele é uma cruel batalha. As instabilidades, o imprevisível…escapa da prepotência e eles são ameaçados pela indeterminação e a frágil subjetividade.
O que dizer, então, da condição do indivíduo contemporâneo, que em meio às suas atividades se vê constantemente às voltas com notícias de catástrofes naturais, violência, assassinatos e guerras?
Isso significa que a vulnerabilidade da condição humana se anuncia a cada esquina, a cada nova notícia de tragédia, levando à sensação de perda da confiabilidade e, por conseguinte, a um estado angustiante de que algo ruim pode ocorrer a qualquer momento.
Em uma sociedade em que se é levado a ver o outro como concorrente, rival ou inimigo a ser combatido, confiar tornou-se quase uma tarefa heroica. No mais das vezes, contudo, a regra a ser seguida diante das relações humanas é a do afastamento defensivo ou assunção de comportamentos hostis.
Como exemplo de como isso se dá em nosso país, Dunker 2015, apresenta a lógica do condomínio, como sendo o ideal de consumo da classe média: o residencial fechado da vida entre muros, cujo objetivo é ocupar um espaço e delimitar um território, protegendo-o de possíveis intrusões. Esse autor considera que os condomínios aparecem como uma tentativa de afastar ou mesmo abolir da esfera cotidiana tudo o que diz respeito à precariedade, riscos e incertezas: “uma região isolada do resto, onde se poderia livremente exercer a convivência e o sentido de comunidade entre iguais” Dunker, 2015, p. 47.
Bauman 1998, 2004 também destaca a crise presente nas relações humanas na atualidade, as quais se tornaram uma das maiores fontes de ansiedade, pois, ao mesmo tempo em que se espera estreitar os vínculos, estes sempre acabam se mostrando frágeis e insuficientes para que sejam plenamente confiáveis.
Psicanalistas como Birman, 2005, 2014; Costa, 1988, 2005 estudam sobre a atualidade e concordam sobre a enaltação da imagem, pela velocidade e intensidade de acontecimentos, excesso e simultaneidade das informações, da fragmentação das unidades em prol das multiplicidades e variedades, na qual a solidez e durabilidade dos relacionamentos, dos projetos e do próprio mundo se enfraqueceram.
Como consequência dos novos processos de subjetivação ocorridos nesse cenário, as temáticas do desamparo e do narcisismo têm sido recorrentes no campo de estudos da psicanálise, sendo apresentadas em conexão com as experiências de pânico, depressão, violência, transtornos de imagem corporal, expressões do sentimento de que, cada vez mais, o sujeito está lançado em situações e afetos que ele não consegue simbolizar e tampouco antecipar
Um aspecto de destaque que se observa no modo como são tecidas as relações humanas na atualidade é a eliminação do outro enquanto figura de alteridade e a assunção de relações simétricas, nas quais ele é visto como um objeto a ser usado em prol do engrandecimento e da exaltação da própria imagem e que, tão logo não seja mais útil nessa função, pode facilmente ser descartado e substituído.
É nesse sentido que se costuma dizer que as subjetividades de hoje são, em grande medida, narcísicas, isto é, subjetividades autocentradas, porém exteriorizadas, uma vez que buscam a si mesmas no olhar admirado que o outro pode ter diante de sua imagem, performance e desempenho segundo Birman, 2005.
O narcisismo presente nas relações humanas da atualidade a partir do referencial teórico da psicanálise, mediante a articulação com o conceito de desamparo, já que essa é a origem do Narcisista.
Hoje predomina relações interpessoais narcísicas, caracterizadas por um autocentramento exteriorizado, em que o outro comparece como objeto que suporta e confirma a fantasia identitária de uma pessoa enquanto ao mesmo tempo ameaça essa mesma identidade, traz a marca do desamparo em sua dimensão traumática, e não em sua dimensão criativa.
Geralmente são mais racionais, o uso, relação objetal e com uma finalidade de gozo é o que atrai eles as pessoas, além da sede de muita admiração.
Referências:
Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro, RJ: Zahar.
Birman, J. (2005). Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação (5a ed.). Rio de Janeiro,RJ:Civilização Brasileira.
Costa, J. F. (2005). O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro, RJ: Garamond
Dunker, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo, SP: Boitempo.
Freud, S. (2010). Introdução ao narcisismo. In Obras completas (P. C. de Souza, Trad., Vol. 12, pp. 13-50). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1914).


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