A sexualidade com droga

Não importa a adicção sempre procuro tratar os pacientes com transtornos de adicção de modo respeitoso e olhar de um modo holístico, ele é muito mais que o problema que traz e eles  tendem a se sentir mais respeitados.

Não posso revelar que sua capacidade de enfrentamento de conflitos psíquicos, traumas, dores e perdas é falho. Os afetos dos adictos entram dão uma espécie de curto circuito e não conseguem pensar na significação do ato que compulsivamente procuram para alívios de suas dores mentais.

O fumo, drogas, auto flagelo, sexo, pornografia, comida, exercícios, plásticas, compras, acumulação… são formas de manter longe e afastado pensamentos conflituosos, impregnados de decepções, cólera, tristeza e impotência emocional.

Vou escrever sobre a adicção sexual. Para McDougall 1992, existem traços perversos de caráter comuns a diferentes estruturas, sendo as adicções e a delinquência seguramente comparáveis até certo ponto à perversão. “(…) Todas estas categorias clínicas têm algo em comum com o desvio sexual e podem ser diferentes métodos de resolução dos mesmos conflitos inconscientes básicos, mas falta-lhes a qualidade específica de erotização consciente das defesas” (pp. 55-56)

Uma outra definição que gosto é do ponto de vista psicopatológico que segundo Estellon 2015, a adicção sexual representa uma forma de “hipocondria das condutas sexuais, em paralelo a uma vida amorosa esvaziada, surda ao desejo e ao sonho” (p. 111), ele ainda complementa “se efetua sobre um modo funcional, operatório e pragmático, sem calor afetivo”.

O adicto sexual ou sex-addict está continuamente obcecado pela busca de situações sexuais diversas: inúmeros parceiros, multiplicação de aventuras sexuais, assédio frenético, sexo virtual, consumo desenfreado de pornografia, masturbação compulsiva, frequentação de clubes de sexo, prostíbulos etc. segundo, André, 2011. Dada a devida definição vou eleger uma grande estudiosa da sexualidade contemporânea: Joyce McDougall.

Para essa Psicanalista para caracterizar os diversos tipos de relação sexual ela foca no ato e não no parceiro(a) que é o investimento, por isso ela propôs o neologismo de “sexualidade adictiva”.

Para compreender os desvios quer homossexuais ou heteros podem ter uma relação adicta, repetição compulsiva com muitos parceiros. A busca incessante por um objeto sexual, dessa forma, resulta em uma espécie de “troca-troca” desvairado, onde o parceiro existe para o sujeito apenas como um corpo sem rosto, sem história e sem importância, sendo facilmente descartado e substituído. As noções de duração, de conquista e de laço associativo se encontram aqui extensivamente suprimidas.

Alguns encenam roteiros complicados, muitas vezes de natureza fetichista ou sadomasoquista. Algumas vezes esses atos rituais, encenados na solidão, são vivenciados como uma necessidade próxima à das drogas, além de serem portadores de uma força compulsiva da qual os próprios pacientes se queixam. Seu objetivo é proteger seu criador de angústia de perder não somente sua identidade sexual, mas também sua identidade subjetiva.

Quando a relação de objeto chega a esse nível de precariedade, não fica claro qual seria o motor inconsciente de tal busca “maníaca”, frenética: se seria o amor, o ódio, ou pura excitação. Sob o disfarce manifesto da sedução transitória do objeto haveria uma valência agressiva: “acoplar” se transforma em “abandonar”, “destituir” e, finalmente, em “destruir”.

Assusta para essas pessoas um relacionamento íntimo, prolongado e com sacrifícios e adaptações, típico de uma relação vinculada em amor. A gratificação é eleita.  Há uma angústia narcísica ligada a própria  relação amorosa por isso é negada e os relacionamentos são objetais.

Essa adesão incontrolável a práticas sexuais revela em sua base graves prejuízos na economia e na dinâmica psíquica do sujeito adicto.

O parceiro sexual funciona como proteção contra a tomada de consciência dos desejo castradores e dos pavores inconscientes associados ao parceiros.

Quer heterossexuais ou homossexuais, consumem, o parceiro para mais uma “condição” o que uma pessoa, há fantasias inconscientes que ameaçam a própria relação amorosa. O medo de ser possuído e ferido pelo outro só pode ser comparado ao pavor inconsciente de implodir no parceiro e de feri-lo de perder sua identidade na fusão com o outro.

Essa adicção sexual precisa ser encarada com profissionalismo, já que a transferência será introjetada no psicólogo, o dilema de funcionamento inconsciente será invalidar o profissional.

Referencias:

André, J. (2011). Les 100 mots de la sexualité “Que sais-je?”. Paris: P.U.F.

Estellon, V. (2015). Sexe-addiction ou la quête compulsive de la petite mort. Études sur la mort147(1), 109-124.

McDougall, J. (1992). Plea for a measure of abnormality New York: Brunner/Mazel Publishers. (Trabalho original publicado em 1978).

McDougal J. (1991) Teatros do Corpo- o psicossoma em psicanálise. Ed Martins Fontes, SP.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

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Oi! Sou Sônia Augusta, psicóloga pela UniFMU, Pós-Graduada em Arteterapia, Gerontologia e Saúde do Idoso e Acupuntura. Me aperfeiçoei em temas como AT-Atendimento Terapêutico, Saúde Mental em Hospital Geral (Unifesp), Coaching de Emagrecimento, Psicossomática, Biofísica aplicada à Saúde. Sou pesquisadora nas áreas de Medicina Integrativa, Psicanálise, Longevidade, Nutrologia e Medicina Tradicional Chinesa.

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