As definições simplistas: medo ou ansiedade com respeito a doenças, quando a pessoa é muito preocupada com os sintomas físicos, como dor, fraqueza, fadiga, náuseas e outras sensações corporais.
Na verdade, trata-se de sintomas somáticos a hipocondria, transtorno doloroso ou somatoforme indiferenciado que envolve a somatização. Soma deriva-se da palavra grega corpo. É no corpo que alguns estão transportando seus conflitos, dificuldades adaptativas, medo e desesperos. As sensações de ansiedades com o corpo, quando excessivas passa a ser um transtorno.
Freud escreveu como modelo da neurose, que nos fez entender que o aparelho psíquico tem como função primordial ligar e dominar as excitações que podem ser sentidas como desprazerosas ou gerarem efeitos patogênicos .
A elaboração psíquica atua no desvio interno de excitações que não são capazes, ou desejáveis para o momento, de uma direta descarga externa. Os investimentos direcionados a libido do objeto e a libido do Eu podem ser avançados e novamente recuados conforme a necessidade vigente, caracterizando a balança libidinal.
Ocorre assim uma oposição entre libidos – libido do eu e libido do objeto -, de modo que quanto mais se emprega energia em uma, mais a outra fica empobrecida. Explicando o adoecimento hipocondríaco como sendo o resultado de um desprendimento da libido em relação aos objetos.
Na hipocondria, observa-se que o processo de adoecimento e formação de sintomas está ligado ao represamento da libido do Eu, sendo este sentido como desprazeroso devido à alta carga de tensão que acarreta. As pessoas estão enfermas porque deixaram de investir no meio externo para concentrar apenas em si mesmo os seus investimentos libidinais.
Neste abandono pelas coisas do mundo, na medida em que não dizem respeito ao seu sofrimento, ocorre a sobrecarga do Eu, resultando por fim no desequilíbrio da balança libidinal. A busca da cura vem pela tentativa de restauração do equilíbrio perdido, a que devemos as manifestações da doença. Esse foi o que Freud nos deixou, contudo as coisas mudaram.
TUDO mudou. Estamos lidando com novas personalidades e novas constituições. A criação dos humanos nos últimos 50, 40, 30, 20… anos detonou a constituição psíquica. Não há mais família, mudanças de papeis e modelos, sumiu o Pai, a proteção, pouco acolhimento e direcionamento para a vida, muitas inseguranças, incoerências, ameaças e traumas.
Estamos em um período do bidimensional, da fantasia, do gozo, arrogância, triunfos e dificuldades de lidar com as frustrações e com o Real. A tecnologia acolheu os sobreviventes de um mundo líquido. Temos uma geração de pessoas sensíveis, delicadas e apavoradas no íntimo.
Esses traços acima são de um perfil limítrofe ou até mesmo psicótico. Esse é o modelo de diagnóstico, mudou o páthos, já que nele carrega a memória da alteridade na origem de toda experiência humana.
Surgiu novos corpos, imagens, e com esse corpo parado, pensante, reprimido porque está sempre insatisfeito, não sabe onde ficar, como ser e para onde ir, são os reflexos da mudança dos tempos. As novas gerações estão se velando do sofrimento, do tumulto, do conflito, da dor. A fuga aparece como “solução”.
Os novos sintomas ansiosos e de desespero são: transtornos alimentares, a compulsão para comprar, para trabalhar, para fazer exercícios físicos, as incessantes intervenções cirúrgicas de modelagem do corpo, a sexualidade compulsiva, o horror do envelhecimento, a exigência da ação, o terror da passividade, a busca psicopatológica da saúde ou, ao contrário, um esquecimento patológico do corpo etc.
O corpo sofre no trabalho, nas Instituições, no relacionamento mais íntimos e com a liberdade de escolha, ao ver a Self … e a própria definição está na imagem ou no corpo.
Para entender o contexto atual precisamos ir para Melanie Klein, Lacan, Bion e Winnicott, e seus contemporâneos, porque criam novos conceitos e alargaram as fronteiras, permitiram que a ênfase fosse colocada no modelo da psicose. A explosão na mídia e nas publicações psicanalíticas abordando os casos-limite, as psicoses infantis, o autismo etc. Indicam que a subjetividade aparece, e permanece enredada nos meandros do conflito, destruindo toda a complexidade e riqueza da interioridade.
Hoje a ênfase atual está na exterioridade, não mais na interioridade, por isso do predomínio das patologias da ação e do corporal.
As problemáticas internas vêm migrando progressivamente para o corpo; a ênfase na corporalidade parece sugerir que a plataforma dos conflitos migra para o exterior do sujeito. O culto ao corpo e à imagem encontra no terror do envelhecimento e da morte o negativo que lhe justifica, a condição de possibilidade de sua existência.
O corpo toma a frente da cena, constituindo-se como problemática psíquica, fonte de sofrimento, de frustração, de insatisfação, de impedimento à potência fálico-narcísica. De veículo, ou meio de satisfação pulsional, o corpo passa a ser veículo ou meio de expressão da dor e do sofrimento. Um sofrimento que parece encontrar dificuldade para se manifestar em termos psíquicos
Esse raciocínio indica que veio de fora as novas formações psicopatológicas, por isso precisamos pensar nos modos de subjetivação vigentes na cultura.
A hipocondria, justamente pela sua capacidade de transitar entre a neurose e a psicose, entre o normal e o patológico, entre a psique e o soma, se apresenta como um modelo fecundo capaz de permitir, a partir do instrumental psicopatológico freudiano, pensar as vicissitudes da emergência do corporal na clínica da atualidade.
Referencias:
DIB, Monica; VALENCA, Alexandre M.; NARDI, Antonio Egidio. Transtorno de pânico e hipocondria. J. bras. psiquiatr., Rio de Janeiro, v. 55, n. 1, p. 82-84, 2006.
Fernandes Maria Helena- As formas corporais do sofrimento: a imagem da hipocondria. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., IV, 4, 61-80.
FONTES, I. Psicanálise do sensível: a dimensão corporal da transferência. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. II, no 1, 1999
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) – Introdução ao narcisismo. Obras Completas, vol.12. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917) – A teoria da libido e o narcisismo. Obras Completas, vol.13. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


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