Não é um assunto simples, raso e tentar reduzir a indução mental ou reprogramação é maquiar um funcionamento psíquico, irá estourar ou deslocar para outra psicopatologia. Resolvi escrever sobre esse assunto, já eu vi recentemente fotos de algumas ex-pacientes e pessoas conhecidas com corpos magérrimos, algumas com orgulho de ter filho no colo, esposo ao lado…em outros países…mas um corpo mirrado e severamente esguio.
Esse problema de caráter complexo tem uma posição de encruzilhada, já que fica entre a infância e idade adulta: maior manifestação na adolescência; entre o psíquico e o somático; entre o individual, familiar e social. Tem uma relação com os processos de mudanças e acesso a autonomia; sensibilidade a mudanças socioculturaias e também representa dores e conflitos psíquicos. Os problemas alimentares indicam dificuldades e necessidade deum recurso de expressão: o corpo. Na tentativa de conter medos, insegurança, apegos, desamparo, vontade de independência e autonomia chega através da fome ou restrição alimentar: Bulimia ou anorexia.
As histéricas, impulsivas e instáveis na oscilação voraz de apetite, enquanto que as obsessivas, determinadas e fortes expões na magreza a ideia de bem estar e indenpedência emocional. Enquanto que as anoréxias não permitem descanso, nada deve distraí-las de seus focos, e elas se acham presas pelo domínio da mãe e de seu próprio desejo de dominá-la e fundir-se com ela; a bulímicas são lentificadas não são severas, descansam e buscam um gozo impossível.
M.C. Célerier invoca a pulsão de apego e a pulsão de controle, em um ensaio de teorização das relações do corpo e das fantasias, nos “somatizantes”, nos anoréxicos e nos bulímicos. , vontade de autonomia e conquista.
Platão, os cátaros e os anoréxicos não estão distantes desta visão do mundo sempre renascente: o corpo deve tornar-se etéreo, aéreo e, enfim, uma pura essência espiritual, acendendo ao conhecimento absoluto e á união com o divino. Diametralmente oposto à anorexia, a bulimia está do lado do mal, da queda e do pecado.
Em ambos os casos quer na anorexia, quer na bulimia o problema central, chave e nodal é o vínculo, ou seja, foi a mãe. A problemática dos conflitos de desejo envolve um sistemático conflito destes pacientes. Ou seja ou a mãe exigiu autonomia, foi distante, pouco carinhosa, distraída, deprimida, ocupada… e nessas falhas de carinho, acolhimento, olhar, afago, toque de atenção materna, não substitutos, para assegurar equilíbrio o contato com a alimentação e resistência e dificuldade com relacionamentos são expressões através da alimentação. Apetência relacional ou excesso são reflexo desta lacuna materna, problemas na individualidade, identidade …são os resultados de uma maternidade: não esperada, atrapalhada, disputada, concorrida…
Fecho com uma teórica que admiro muito, J. McDougall que explora as fronteiras ambíguas entre psique e soma, e se empenharam principalmente em compreender os sintomas que servem de escudo contra a indiferenciação e a perda de identidade:
“ Essa explosão no corpo, que não é nem uma comunicação(neurótica), nem uma recuperação(psicótica), tem a função de um ato, de uma descarga que causa curto-circuito no trabalho psíquico. É nisso que a somatização assemelha-se as atos-sintomas, como adições(bulímicas, tabagistas, alcoolistas, medicamentosas etc…), certos desvios sexuais e certas neurores caracteriais. Desvelam-se aqui uma carência na elaboração psíquica e uma falha de simbolização, que são compensadas por um agir de qualidade compulsiva(ou restritiva), caminho mais curto da dor psíquica…a função de um objeto que falta ou que está estregado no mundo psíquico interno(o alimento ou a droga como resposta a depressão: o fetiche ou a conduta de fracasso como resposta da angústia de castração). Assim a externalização no agir esconde uma história relacional e passional cujos fins são petrificados em um ato alienante, mas cuja leitura é possível.” (1974, p.132). Essa teórica aponta um vazio vindo do relacionamento do primeiro objeto, ou seja, falha materna, e o poder deste vínculo nos relacionamentos futuros: sádicos, masoquistas, distantes, superficiais…
Psicoterapia psicanalítica permite a transferência reparadora para esses males.
Referência:
McDougall(1974). Le psyché-soma et la psychanalyse. Nouvelle Revue de Psychanalyse, 10, 131-149.


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