“ O inconsciente é o social” – Lacan
Uma estudante de psicologia pediu informações sobre a histeria hoje, já que para ela o conceito de Freud “está datado”. A “invenção” da histeria foi de Charcot e ele passou essa questão para Freud que junto com Breuer. Que em 1895 escreveram Estudos sobre a Histeria.
Tudo mudou, porque o que estruturava a histeria era a proteção do Pai, o medo de gozo. O fantasma apresentava o triunfo da relação incestuosa, em tempo, a denúncia do incesto também protegia o pai da suspeita de impotência que poderia pairar sobre ele.
Na contemporaneidade, estamos diante da visível destituição do pai de sua função Real, do suposto enfraquecimento ou mesmo ausência do significante mestre, do Outro, do referente, a histeria surge como uma expressão para reafirmar essa potência esquecida.
Atualmente a histérica promove uma retirada do pai do seu lugar comum, onde ele deixa de ser aquele a quem todos reconhecem de igual maneira, sem o privilégio da sua função simbólica, que instaura a lei (Kehl, 2002).
A histérica teria por objetivo, modificar a representação patética do pai, visto que seja pouco interessante para sustentá-la enquanto sujeito que deseja sendo a característica essencial, pois onde alguma coisa falta existe um sujeito (Lacan, 1992). Isso explica , o porquê de a histérica freudiana ter feito de seu pai um criminoso: desse modo concedeu-lhe um lugar enfatizado.
Na época do Freud a menina era a princesa, rainha e almejava o olhar a atenção do Pai, a paixão e modelo de homens futuros. Sempre a procura de um mestre para ela ficar junto, admirando e sendo elogiada e reconhecida.
Hoje a histérica nos mostra a via do significante sem o pai, isto é, sem que o poder do significante, como causa de gozo, suposição que, aquilo que antes poderia ser atributo do fazer-se mulher, em referência à sua posição de exilado, atualmente pode ser tomado como predicado de toda e qualquer pessoa que se encontra perdida, sem ter a quem se remeter, sem um pai que lhe proporcione integração e validação enquanto sujeito.
Além do declínio do pai, lidamos com os efeitos de um mundo sem bordas, fragilizado pela inexistência de fronteiras. Efeitos tais que diante da supressão de barreiras podem muito bem nos remeter a um lugar sem chão ou céu.
Os sintomas? Eles apresentam prevalentemente em sua vertente real e libidinal como, por exemplo, os acontecimentos de corpo, as compulsões, algumas formas de apresentação da homossexualidade feminina, as devastações amorosas, individualismo em massa, Auto-satisfação, Exibicionismo, Consumismo, etc. O Histérico(a) hoje para porque o corpo adoece, inflama, entra em colapso ou a mente em surto, devido á falta de moderação e limites.
O apagamento das fronteiras, a suspensão de limites e a mixagem paradoxal das línguas no inconsciente caracterizam o que Melman pensa sobre contemporaneidade. O mundo contemporâneo encontra-se sob o regimento de uma nova ordem, a de que passamos por uma mutação cultural e estamos diante da emergência de uma nova economia psíquica. E isso estaria produzindo novos sujeitos e novas patologias.
Sugiro ler Chemama e e Melman, já que esses franceses estudam elementos da psicanálise cotidiana. Melman (2008) defende como mutação cultural e nova economia psíquica, as pessoas sem gravidade é como ele chama aqueles que querem gozar a qualquer preço, imitam ou reproduzem sem grandes reflexões. Ocorreu um novo rumo para a histérica, pelo processo cultural que estamos vivendo.
A emergência da nova economia psíquica consiste, em uma nova forma de se relacionar com o objeto, efeito e resultado de uma mutação cultural inédita, caracterizada, entre outras coisas, pela crise das referências, pelo desaparecimento do sagrado (aquilo que sustenta tanto o sexo quanto a morte), pela liquidação das transferências, pelos excessos, a ausência de limites.
O objeto causa do desejo, antes perdido e ausente, por essência, perdeu seu estatuto, está se presentificando, e as possibilidades de substituição são infinitas (Melman, 2008).
Um traço da nova economia psíquica seria a de que a divisão subjetiva quase não acontece mais. Aquele sujeito dividido, que questionava a existência, estaria se transformando em um sujeito inteiro. Sem recalque ou insatisfações.
O ideal de liberdade, que parece ser realidade nesse contexto de mutação cultural, implica o aprisionamento do sujeito em uma região de limbo, onde se encontram desorientados, perdidos; em um mundo onde ele não sabe mais se está vivendo ou sonhando. A liberdade, nesses termos, torna-se danosa, porque se tudo é permitido, não exige mais dos indivíduos tanta reflexão nem escolha.
Essa suspeita nos remete ao que Lacan (1992) diz sobre o ateísmo da psicanálise, quando explica que é um ateísmo diverso do comum “Deus está morto“. Nesse caso, poderíamos pensar que sem Deus, sem a interdição, tudo seria permitido.
Sendo assim, o imperativo do gozo está mais para um castigo do que para uma alegre liberdade. Se, por um lado, isso demanda cada vez menos do sujeito, por outro, não oferece mais suporte para sua realidade, que outrora deveria ser organizada pela decepção ou insatisfação.
Referência bibliográfica
Kehl, M. R. (2002). Sobre ética e psicanálise. São Paulo, SP: Companhia das Letras.
Lacan, J. (1992). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (A. Roitman, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Zahar. (Trabalho original publicado em 1969-1970. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller)
Melman, C. (2008). O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço. Entrevistas por Jean-Pierre Lebrun (S. R. Felgueiras, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Companhia de Freud.

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