O que é bom não está à vista, nem é fácil alcançar

Na década de 80 a exploração de Serra Pelada, o maior garimpo do Brasil sempre estava nos noticiários, hoje só resta uma cratera de 24 mil m2, com 70 a 80 metros de profundidade, que as águas transformaram num lago poluído de mercúrio. Calcula-se que foram extraídos cerca de 45 toneladas de ouro até seu fechamento em 1992.  Muitas pessoas morreram por péssimas condições de trabalho, segurança, higiene, vícios e DST. Uma vez perguntei a minha mãe: ”Por que as pessoas vão para um lugar assim?” Ela respondeu: “Eles querem ficar ricos”.

O que é precioso está escondido e precisa ser garimpado. Vivemos em mundo em que o que é bom é incomum e o que pouco vale é divulgado pela cultura, líderes, mídia, internet …Conheci a alguns anos atrás um cientista que ninguém fala dele, mas que teve uma contribuição maravilhosa para a Psicanálise, Medicina e Psicossomática: Greorg Groddeck

Considerado o pai da medicina psicossomática, Georg Groddeck (1866-1934) foi o primeiro a reorientar a medicina moderna colocando de lado a divisão corpo e alma. Seus escritos, que ainda hoje continuam causando impacto pelo senso de humor e ironia, revelam o analista selvagem como ele mesmo se intitulava.

Sem interesse em ser visto como cientista, Groddeck escrevia para seus pacientes, de maneira livre e associativa, pois temia que a palavra matasse o pensamento. Apesar de criticado, comentado, insultado e incompreendido, suas ideias são sempre originais e desenvolvem-se a partir de uma inspiração espiritual, filosófica e do esforço constante em aplicá-las à psicanálise.

Como médico foi criticado e com psicanalista também e ele foi pelo meio, por assim disser, com rigor científico, curiosidade primorosa e desejo de entender as doenças e associar o que elas sentem, acreditava no Id ou ISSO, como sendo o precursor dos males físicos e psíquicos. A marca distintiva dele é a junção da alma e o corpo. Em seus escritos ele diz:

Muitos antes de conhecer essa doença…(neurose), tinha plena convicção de que a distinção entre alma e corpo era apenas uma questão de palavras e não de essência: que o corpo e a alma são algo em comum, que aí se encontra um id, uma força pela qual somos vividos enquanto cremos viver…Em outros termos recusei categoricamente a separação entre males do corpo e males da alma; tentei tratar o ser individual em si, o id que existe nele; procurei encontrar uma via que levasse ao impenetrado, ao impenetrável…”  Groddeck: a doença como linguagem, 1988. Pg 101.

Na visão groddeckiana, o mundo da infância confere ao homem a espontaneidade, a inocência, a ligação com a mãe natureza que devem ser buscados como paradigmas de saúde.  A vida adulta, ao contrário, com suas obrigações e exigências, transforma a criança em um ser limitado e afastado da natureza.  para Groddeck, ser criança é ser um com a natureza, conceito que colhe no Deus-Natureza de Goethe, segundo o qual cada coisa deve ser considerada como parte de um todo, sem decompor.

Groddeck não aceitava as dicotomias presentes na racionalidade científica moderna como explicitada no pensamento de Descartes, segundo o qual a dicotomia corpo e mente abarca duas substâncias que representam mundos distintos: o mundo das coisas extensas e o mundo do pensamento ou das coisas imateriais.

Em oposição ao pensamento dualista, Groddeck concebeu corpo e mente como uma realidade única e indivisível. Inevitável remeter a irrefutável passagem bíblica: “E Jeová Deus formou o homem do pó do solo e soprou nas suas narinas o folego de vida o homem se tornou um ser vivente(ou alma; uma pessoa, hebraico, néfesh, que significa literalmente “uma criatura que respira”)

O papel do médico é cuidar e não curar, pois “não é o médico que derrota a doença, mas o doente” (Groddeck, 1921/2008, p. 227). No trato com os pacientes é imprescindível a paciência, a humildade e o amor para devolver-lhes a forma humana para que ela irradie de novo o brilho da infância. As ideias do médico só adquirem forma terapêutica ao serem apropriadas pelos pacientes, através da transferência.

Entre outras pérolas que ele deixou foi a auto-análise, estágio atingido por alguns com êxito, mesmo sendo questionados por outros com pouca  acuidade intelectual e incoerência emocional.

Precisamos observar que o que fala no ser humano “vai bem além da palavra até penetrar nos seus sonhos, seu ser e seu organismo” (Lacan, 1953-1954/2009, p. 338).

Referencia:

Groddeck, G. (2008). O Livro dIsso São Paulo, SP: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1921)

Lacan, J. (2009). O seminário. Livro 1. Os escritos técnicos de Freud Rio de Janeiro, RJ: Zahar. (Trabalho original publicado em 1953-1954).

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Oi! Sou Sônia Augusta, psicóloga pela UniFMU, Pós-Graduada em Arteterapia, Gerontologia e Saúde do Idoso e Acupuntura. Me aperfeiçoei em temas como AT-Atendimento Terapêutico, Saúde Mental em Hospital Geral (Unifesp), Coaching de Emagrecimento, Psicossomática, Biofísica aplicada à Saúde. Sou pesquisadora nas áreas de Medicina Integrativa, Psicanálise, Longevidade, Nutrologia e Medicina Tradicional Chinesa.

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