Existe no imaginário das pessoas um “ Amor de Verdade”, é aquele que as pessoas fantasiam, e nunca realizam, só nos sonhos. É o vínculo no domínio do sexo selvagem, concreto e real, entre dois corpos distintos. As demais ligações entre dois corações ou duas mentes, laços e vinculações no mundo animado, são metafóricas, simbólicas, imaginárias ou virtuais.
É assim que, no ato sexual mais simples, com ou sem amor, há dois corpos que tentam uma relação que, diz-nos Lacan, é impossível, embora a fecundação lhes permita algum tipo de comunhão.
Será quando seus figurantes passarem do dois ao três(fecundação), para logo em seguida se separarem. Agora, então, depois que os dois primeiros corpos se afastaram, a nova dupla estará atada, simbioticamente ligada, como uma mãe e o seu filho. Quando, a partir do nascimento, gestante e bebê forem novamente separados, suas mútuas necessidades os reaproximarão, passando por sucessivos estágios de acertos e perdas, e o par, mamilo e boca, se tornará o protótipo para os vários tipos de vínculo entre aqueles seres, agora irremediavelmente isolados.
Quando Bion descreveu os tipos de relação entre o continente e o contido, ele já não estava mais tratando de “dois corpos”, senão apenas de “duas mentes” empenhadas em buscar, ou em fugir, ao contato.
Para o psicanalista britânico há três formas de vínculo: L, pelo amor; H, através do ódio, e K, pelo conhecimento (mais os seus opostos, sob a ação da pulsão de morte), e existem três modos de relação: a comensal, a simbiótica e a parasitária, operantes enquanto o indivíduo se confronta com a solidão e os limites da linguagem (Bion, 1977, p. 108).
Como Bion o esclarece, o embate constante entre as pessoas que se encontram no consultório analítico se fará presente em quase todos os momentos, enquanto elas não aceitarem a extensão do seu isolamento. Um dos dois, pelo menos, não cessará de pressionar o outro para destruir os limites físicos que os separam, no típico movimento da transferência de cunho erótico-sexual. Enquanto isso, no mundo mental, todo tipo de encontro e de transformação se oferece.
Mesmo quando se está face a face, corpo a corpo, pele na pele, o que tocamos, no outro, será sempre um invólucro que se renova sem cessar.
Os laços que unem as pessoas, mesmo quando se trata de vínculos transferenciais, esses movimentos de amor em trânsito, poderão ser tão verdadeiros quanto eficazes.
Assim, apesar de reconhecer a interferência dos afetos nas reedições transferenciais, dentro e fora do encontro psicanalítico, Freud, como também Bion e Lacan, discorreram sobre um amor real, que não seria interesseiro, convencional, composto de medos e de cumplicidades, ou um amor-obsessão feito de repetições e dominações, um fantasma do passado. Todos eles trataram do amor como um dom.
A quem amamos quando amamos uma pessoa? Será o amor narcísico, sempre? O que se dá e se recebe no amor estará na acolhida do outro e da sua diferença, na continência às suas angústias e, ainda mais que isso, no seu cerne de verdade e mistério, como sustenta Bion? Será que, como Lacan afirma, no amor dá-se aquilo que não se tem?
O sociólogo Zygmunt Bauman (2004) descreveu o homem contemporâneo como sendo “um homem sem vínculos, mas que se conecta com os outros”. De fato, no mundo virtual, estamos conectados sem estarmos vinculados, através de uma rede social em permanente expansão.
Para Lacan os registros real, imaginário e simbólico se entrelaçam em anéis borromeanos quando pensamos, sentimos, falamos e existimos, em um universo no qual prevalece a imagem em prejuízo da palavra, algo se desestabiliza e esses laços se transformam em amarras, ou se cristalizam em um delírio que pode abranger uma multidão.
Se há uma doença social na atualidade, ela decorre do predomínio das relações imaginárias que, apesar de se darem por meio da palavra, tomam-na como mais um objeto, figura ou instrumento de manipulação, enquanto dela retiram seu valor significante, aquele que deixa um sinal no corpo de quem dela se servir, um sinal que o compromete em uma dimensão que está além dele mesmo.
Referencia:
Bauman, Z. (2004). Amor líquido. Rio de Janeiro: Zahar.
Bion, W. (1977). Attention and interpretation. In W. Bion, Seven servants, four works. New York: Jason Aronson Inc


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