O termo foi baseado no mito de Narciso, que vem da cultura grega, a estória de um jovem que se apaixonou por sua imagem. O mito de Narciso nos relata na atualidade os efeitos da auto imagem, trazendo consequências desastrosas para a vida humana, que afasta as pessoas de novas experiências, novos conhecimentos e de pessoas. A sua auto imagem basta para sua sobrevivência.
Para a psicanálise a ferida narcísica é quando alguma experiencia fere o Ego humano, as emoções e sentimentos são machucados. Por isso falamos ferida narcísica. O Bullying, complexo de inferioridade, distanciamento ou recriminações na infância… Lembro-me de um paciente que era inferiorizado na escola e na vida adulta ele não se via(por isso fez psicoterapia) ele tentava ser e provar para todos o oposto dos sentimentos que tinha rancor na infância: sentimentos de exclusão, inferioridade e preconceito que ele foi vítima. Outra pessoa que passou fome, nordestina, veio para a clínica com outras questões, mas era obesa mórbida e tive que tocar na questão da alimentação, aí quando descobriu ou se conscientizou que não precisava no presente comer em abundancia(não passaria mais fome) foi emagrecendo aos poucos.
O sentimento narcísico é como um eco, ele não escuta o outro, apenas ouve a si mesmo, e eco do seu conhecimento e de suas decisões. Ser narcisista é possuir a si próprio.
Ter que ouvir e ser possuído por um outro é desesperador. Em Genesis 2,18 Deus nos diz: “Não é bom que o homem fique sozinho. Vou fazer-lhe uma ajudadora, como complemento dele.” No início da criação o homem já não conseguiria viver só. O homem depende um do outro, não há como sobreviver sozinho. A sociedade é um espaço de preservação da vida do indivíduo, onde se busca saciar suas necessidades e a do próximo. Já o narcisista não admite o outro devido ao sentimento de empoderamento e sensação de infinitude.
Paul Nacke foi um médico Psiquiatra, foi o primeiro a utilizar o termo narcisismo. Em 1889, Paul atribuiu o narcisismo como uma espécie de perversão: o corpo do narcisista é o seu objeto de desejo sexual. Ele ama a si mesmo, em outras palavras, não quer amar, mas ser somente amado.
A escolha amorosa do narcisista está sempre embasada a partir de si, na sua imagem. Não existe o reconhecimento da existência do outro. O narcisista é onipotente e indestrutível.
Brené Brown, em seu livro “A coragem de ser imperfeito” faz a seguinte pergunta: “Que está transformando tantas pessoas em narcisistas.” E em uma de suas respostas nos diz: “…encontram uma diminuição expressiva do uso de “nós” e “nosso” e um aumento do uso de “eu” e “meu”.
Pesquisadores também relatam que não se usa mais as palavras solidariedade e emoções positivas, houve um aumento significativo por palavras de ódio, ira, morte e medo. Vale lembrar que o ser humano está vivendo debaixo de uma cultura narcísica, onde o EU sempre prevalece.
É uma busca desenfreada pelo sucesso, pela necessidade de admiração. Hoje as redes sociais estão contribuindo de forma grandiosa para a geração de comportamentos narcisistas. A fonte que Narciso olhou e ficou encantado com sua imagem, hoje ela é virtual. Há uma preocupação excessiva de quantos seguidores se tem, quantos likes recebi.
Nunca a opinião do outro valeu tanto para alimentar o ego e as satisfações do indivíduo. A busca pela perfeição física, a aparência do corpo e tudo que é externo traz um vazio tão grande que leva o indivíduo a tirar sua própria vida. Um narcisista grave não provoca a morte nos outros, mais causa a sua própria.
Um narcisista saudável é o que contribui para a auto estima do indivíduo. É o respeito e o carinho pelas próprias ideias ou sentimentos e principalmente aceitar o que é diferente. O narcisismo mortífero está ligado com o excesso.
É esquecer o outro e viver sob o próprio umbigo, é o que faz o indivíduo esquecer a fragilidade e finitude que existe dentro dele.
O narcisismo enquanto transtorno de personalidade
O indivíduo com o transtorno de personalidade narcisista gere uma ideia exagerada de sua própria importância, causando alguns problemas de relacionamento, falta de empatia, tendência a depressão e uso de drogas. Acredita-se que as causas desse distúrbio sejam tanto genéticos quanto ambientais, que pode ser passado de geração em geração.
Acredito ser mais ambiental do que genético, pois o ser humano nasce vulnerável, o ambiente em que está inserido vai moldar o seu caráter, comportamento e suas crenças. Somos parte do ambiente e somos influenciados devido a uma cultura de obediência, respeito, princípios e valores que nos são passados.
O próprio mito de Narciso nos mostra que sua mãe ficou encantada com a beleza do filho. Atualmente os pais estão colocando seus filhos em pedestais, sem deixar que sintam emoções como frustrações, medos, vulnerabilidade e outras. São príncipes e princesas vivendo um conto de fadas solitário em si mesmos.
Filhos que nascem em um ambiente narcisista tende a ser tornar um. Ainda no relato do mito de Narciso, o preço que ele pagou foi muito alto. Narciso morreu afogado, como consequência de um amor desmedido por si próprio.
Dois pesquisadores, autores do Livro The Narcissism Epidemic (A epidemia do narcisismo), argumentam que a incidência do transtorno de personalidade narcisista mais que dobrou nos Estados Unidos nos últimos 10 anos. Será que estamos vivendo em um mundo cercado de pessoas egoístas e pretenciosas que só pensam em si, no sucesso, nas curtidas, na beleza? Será que o ego está tão inflado que acreditamos ser seres superiores? TODO MUNDO SENTE DOR, ADOECE E SOFRE, SOMOS TODOS IGUAIS.
Se temos uma epidemia, então temos uma patologia a ser tratada. As consequências do distúrbio da personalidade narcisista são enorme, tudo o que se torna exagero e foge do controle das emoções causa dor e muito sofrimento.
Brené Brawn ainda em seu Livro (A coragem de ser imperfeito) relata que: “…quando analiso o narcisismo sob esse ponto de vista, enxergo o medo da humilhação de ser alguém comum.” O medo de ter que expressar sua vulnerabilidade é algo assustador.
Por esse motivo dificilmente o narcisista irá procurar ajuda por si próprio. Em alguns casos somente quando os problemas como a depressão, o luto pelo término de um relacionamento e a dependência de drogas começam a motiva-lo a buscar ajuda de um profissional. A psicoterapia é a forma de tratamento mais recomendável para esse Transtorno, que geralmente vem acompanhado de outros: Comorbidades.


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