Essa foi a pergunta feita por um paciente. Se o vício apenas fosse do âmbito mental, talvez existisse uma resposta simples. Por mais que Neuropsicólogos, Psiquiatras, TCC e Coaches se debrucem com técnicas e medicamentos, há uma profundidade pulsional, orgânica, cerebral e ambiental.
Há um livro fantástico chamado Adicções: Paixão e Vício que se aprofunda nesse mundo sinistro dos vícios: drogas e outros.
Qual a chave que se liga ou desliga para deixar uma vício? O eixo da paixão é também articulado fundamentalmente na e pela pulsionalidade, sobretudo quando pensada como paixão oral e paixão anal. A adição pode ser tomada como forma de paixão, e a paixão como forma de amor viciado ou vício amoroso. Assim, fica trilhado o caminho de extensão da questão da adição para além das drogas lícitas ou ilícitas.
A abordagem psicanalítica pode-se apresentar sob duas vertentes: uma clássica, com adaptações da psicoterapia analítica no quadro de uma relação dual, e outra que integre uma série de abordagens multidisciplinares, incluindo demais técnicas e profissionais. A direção do tratamento analítico, ainda que centrada no sintoma, tem como objetivo ir além do seu desaparecimento, visando à elaboração do conflito subjacente a ele.
Dentro dessa perspectiva, o sintoma , o vício, é uma solução de compromisso entre o desejo inconsciente e a censura psíquica, ou seja, um representante desse conflito. Se eliminado, mas não resolvido, ele pode retornar ou ser substituído por outro diferente.
Vícios são diversos: telas, pornografia, jogos, compras, sexo, álcool, drogas, fumo, comida… Ampliando o escopo e partindo da Toxicomania e Alcoolismo, seguindo para a adição ao sexo e adição ao outro, formas de vício tomadas em conjunto com outras adições, como os relacionamentos aditivos e a sexualidade aditiva. O trecho deste livro diz:
“A dependência se constrói em uma circularidade de necessidades e significados […] a própria experiência de uso de objeto retroalimenta as causas, reestruturado a vivência e autopercepção. O sujeito com suas necessidades vive, no encontro com o objeto, uma experiência particular de reestruturação de si mesmo […]. Essa é uma tese sistêmica que se aproxima de diversas formulações psicanalíticas, especialmente do pensamento das relações de objeto (p. 34-35)”.
E ele segue: “a conduta aditiva é um fator atual que interfere de tal forma na vida psíquica e no destino do sujeito que ela quase que subverte e reconfigura a sua estrutura clínica pregressa” (p. 35).
No rastro da paixão que leva o sujeito a ser engolido pelo objeto da paixão, surge a temática da falta, que ocupa lugar privilegiado na clínica das adições. A paixão busca anular toda e qualquer falta. E assim fazendo, leva o sujeito a ser capturado de tal forma pelo objeto da paixão, que se vê dominado por ele.
Já no campo do modelo relacional, a leitura de Christopher Bollas exemplifica a possibilidade de pensar a personalidade prescindindo do conceito de caráter, ao retirar o conceito de pulsão da centralidade da constituição da pessoa.
Bollas analisa as personalidades borderline, narcisista, esquizoide e histérica, prescindindo de tratá-las no registro clássico-pulsional como caráter anal e oral. Tais distúrbios são entendidos como reflexo de perturbações de modalidades distorcidas de relação com o objeto primário, seguindo a tradição do pensamento do grupo do meio, ou dos independentes que se distanciam um pouco mais de Freud, que se formou a partir de Winnicott.
Sobre como tratar o vício? Precisa de ajuda, precisa do Outro para entender, apoiar e clarificar o pensamento, sentimentos e pulsões incontroláveis.


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