“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos…” (Pablo Picasso).
E dentro de nós com os relacionamentos e decepções, por vezes estamos em constantes lutos e reelaborações. Assim como o adolescente o idosos sofre mudanças inevitáveis e sem controle o corpo muda, os sentidos mudam, a energia e a mente se modificam.
O envelhecimento humano é um processo gradativo que engloba aprendizagem, desenvolvimento e amadurecimento, no entanto o avanço progressivo do tempo pode culminar em diversas perdas físicas, sociais, cognitivas e exige intensa elaboração emocional do sujeito que envelhece visando uma adaptação saudável às mudanças desta fase que avança.
A sociedade ocidental não oferece um lugar de destaque aos seus idosos e estes precisam enfrentar mais perdas do envelhecimento do que ganhos da maturidade (Bromberg, 2000). Neste contexto, seus lutos podem decorrer de perdas nos âmbitos social, financeiro, fisiológico e simbólico.
Por outro lado, também temos que pôr em evidência que o envelhecimento se trata de um sentir-se, ou seja, do ser subjetivo, em que cada pessoa tem sua maneira própria de envelhecer.
É impactante quando o idoso se depara com eventos como: a saída dos filhos, impondo muitas vezes restrições no convívio social e de lazer; a aposentadoria compulsória, com a qual pode haver afastamento de suas atividades laborais e produtivas e consequentes redução de renda e do convívio, assim como abalos no senso de utilidade; a constatação de que os pares estão morrendo ou ainda, o enfrentamento da viuvez e da solidão; a ausência de papéis sociais valorizados; o aparecimento de doenças ou comorbidades; o declínio da beleza e do vigor físico; a perda do exercício pleno da sexualidade; a perda da perspectiva de futuro (Bromberg, 2000; Kovács, & Vaiciunas, 2008).
Com isso, cabe ao idoso organizar-se para empreender mudanças no estilo de vida e fazer uso efetivo de seus recursos emocionais para atuar sobre a realidade de perdas concretas e simbólicas.
Essas perdas sucessivas decorrentes da doença promovem luto, somadas ao processo de envelhecimento do idoso que também implicam perdas e culminam lutos. No mesmo raciocínio, Suzuki, Almeida e Silva (2014, p.469) afirmam que “o enfrentamento de uma perda pode acelerar e potencializar a vivência de outras perdas”, assim, justifica-se pensar acerca de como o idoso percebe e vivencia o luto diante de seu processo de envelhecimento.
O luto é um processo dinâmico, compreendido como a reação ou resposta diante do rompimento de um vínculo significativo. Deste modo, o luto é vivido de maneira singular, assim como a relação que foi rompida, embora a manifestação de enlutamento esteja ancorada na cultura (Bowlby, 1990; Franco, 2010).
Na verdade mesmo alguns catalogando fases e tentando mapear a dor e como se elabora uma perda, DSM-V, CID 11… não há duração determinada, nem fases preestabelecidas e que, para cada tipo de perda, devemos considerar os fatores e circunstâncias relacionados à perda e seus significados, dentre eles o contexto, a natureza do que foi perdido, a existência de rede de apoio, a personalidade do enlutado e estresses concomitantes. Cada caso é único.
Mesmo delimitando os aspectos relacionados ao processo de luto do idoso pelo envelhecimento e adoecimento, é importante movimento de ressignificação e reinvenção da velhice.
Atualmente muito se fala de qualidade de vida, alimentação, exercícios, sociabilidade, sentido de vida, visão integrativa, espiritualidade para se manter bem, saudável e forte. Mas a imposição dessa visão mais nova e otimista de vida depende a autorização interna, demolição de conceitos fortemente arraigados, ou seja, quebra de paradigmas para a adoção de uma abertura para o novo, transformador e diversas maneiras de envelhecer e conceber a longevidade.
O velho não pode ser considerado como categoria estanque nem classificatória, pois há heterogeneidade tanto no processo de envelhecimento quanto no sujeito do envelhecimento.
Quando fiz minha Pós em Gerontologia percebi que há uma tendência contemporânea à revisão dos estereótipos associados à velhice, assim, a noção de perdas e de degenerescência está dando lugar à nova concepção de que a velhice e que pode ser uma etapa que permite prazer, conquistas e realizações de sonhos, ou seja, há perspectiva de planos futuros na construção subjetiva e cronológica desta que antes era apenas a última etapa do ciclo vital.
Dá para “juntar os cacos” e se refazer, se reorganizar para viver melhor e bem! Continue, vale a pena viver! CORAGEM!
“Ele fez tudo belo a seu tempo. Pôs até mesmo eternidade no coração deles…” Eclesiastes 3:11
Referencia:
Bowlby, J. (1990). Apego e perda (Vol. 1: A natureza do vínculo). São Paulo, SP: Martins Fontes.
Bromberg, M. H. P. F. (2000). A psicoterapia em situações de perdas e luto. Campinas, SP: Livro Pleno.
Franco, M. H. P. (2010). Por que estudar o luto na atualidade? In M. H. P. Franco, (org.), Formação e rompimento de vínculos; o dilema das perdas na atualidade. (pp.17-42). São Paulo, SP: Summus.
Kovács, M. J., & Vaiciunas, N. (2008). Ciclo da existência: envelhecimento: desenvolvimento humano e autoconhecimento. In M. J. Kovács, Morte e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção (pp.96-111). São Paulo, SP: Grupo Gen.
Suzuki, M. Y., Almeida, E. V., & Silva, T. B. L. (2014). Possibilidades de intervenções gerontológicas no processo de perdas e luto em indivíduos idosos. In F. S. Santos, Tratado brasileiro sobre perdas e luto (pp. 469-478). São Paulo, SP: Atheneu.


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