A mente analítica vasculha respostas e rebusca caminhos para explicações. Recentemente um momento adverso foi contido, restrito e isolado até que o desfecho de morte que ficou entre os entes próximos. Minha primeira teoria é que pessoa que se doam demais, ajudam muito, no geral possuem dificuldade de receber, isso é fato. Será que se esbarra no Ego? No narcisismo? Veio logo a mente o livro e Brene Brown a Arte de ser Imperfeito.
Na década de 90 tive contato com muitos africanos que vieram para o Brasil, fugindo de guerras civis, com eles aprendi muito, a simplicidade e uma frase especial: “Quando você estiver doente ou precisando de alguma coisa avisa para que os outros possamos te ajudar, ficar ao lado ou se distante orar por você.”, achei aquilo fofo demais. Essa é a mentalidade deste povo simples e humilde, quando precisar avise para que a mão se estenda e você possa receber ajuda, companhia ou orações.
Já fez 5 anos da Pandemia da Covid 19 e um dos maiores dramas foi a restrição sanitária do velório e enterro que foi extremamente restrito, houve necessidade de abreviação ou interrupção de rituais tradicionais celebrados para homenagear os mortos e confortar os indivíduos enlutados.
Na clinica atendi um jovem que perdeu 5 membros da família na sequencia e não tinha nem tempo de elaboração-Covid 19, foi um trabalho longo e simbólico de luto o atendimento clínico. Aquelas pessoas significativas para ele eram também significativas para muitos outros: Professores, Fiscais, comerciantes…gente pública que sumiu sem despedida da comunidade, no Rio de Janeiro.
A Psicologia há muito tempo reconhece o valor emocional e o papel estruturante da realização de ritos e rituais na organização das diferentes sociedades e culturas. O rito é uma categoria mais ampla, como rito de passagem ou de cura, enquanto o ritual é o conjunto de gestos e ações que compõem os ritos.
Os rituais humanos são comuns a todos os povos e são ações simbólicas, comportamentos repetitivos, padronizados e altamente valorizados, que auxiliam o indivíduo a canalizar emoções, compartilhar com seus pares suas crenças e transmitir seus valores(Santos S, Crespo C, Canavarro MC, Kazak AE. ,2018,
Crepaldi MA, Schmidt BN, Noal DS, Bolze SDA, Gabarra LM. 2020).
Marcando a transitoriedade da vida, os rituais fúnebres estão presentes desde sempre na história(Souza CP, Souza AM 2019), lembro-me do velório de Moises, Abraao e grandes patriarcas, as pessoas são públicas, e duravam dias. Porque compartilhar? O objetivo de demarcar um estado de enlutamento em reconhecimento ao valor e importância daquele ser que foi perdido, além de favorecer mudanças de papéis e permitir a transição do ciclo de vida, segundo alguns estudos.
Quando minha mãe faleceu, não tive tempo e nem emocional para avisar a todos no Bairro e isso trouxe muita comoção por parte do entorno, mesmo assim tinha muitos da Região, além de vizinhos queridos e amigos. Ela não era somente minha, nem de meus irmãos, sobrinhos, cunhados e netos.
É importante considerar, a relevância dos rituais fúnebres para a maturação psicológica, uma vez que contribuem para que os indivíduos confrontem a perda concreta e deflagrem seu processo de luto, possibilitando a manifestação pública de seu pesar(Souza CP, Souza AM., 2019).
Os rituais fúnebres têm se mostrado, ao longo da história da humanidade, marcos existenciais no processo de elaboração e ressignificação da morte de um ente querido por parte dos que permanecem. O processo agudo de luto desencadeado pela perda é importante para a saúde psíquica por ser uma oportunidade para elaboração da finitude – do outro e de si próprio.
Com a Pandemia os estudos socais e psicológicos, concluíram que; os familiares e parentes se veem tolhidos da possibilidade de realizarem os rituais de despedida, por conta das restrições impostas pela pandemia, todo o enlutamento pode se tornar mais doloroso e até mesmo incompleto. Isso pode desencadear sofrimentos psicológicos que tendem a se arrastar indefinidamente, fornecendo matéria-prima para o desenvolvimento do luto complicado.
Porém estamos em uma sociedade da Razão e pessoas muito racionais no geral possuem dificuldade de emergirem na dor e sofrimento, é chamado de supressão emocional, essa ação consciente ou inconsciente de esconder ou isolar emoções pode gerar consequências negativas para a saúde mental e física.
Chorar faz bem, perder o controle de vez enquanto também, dividir é divino e sentir pesar é humano. Sentimentos dolorosos precisam serem partilhados, caso contrário eu mudaria de profissão. Empatia existe e é real.
Referência:
Crepaldi MA, Schmidt BN, Noal DS, Bolze SDA, Gabarra LM. Terminality, death and grief in the COVID-19 pandemic: emerging psychological demands and practical implications. Estud Psicol (Campinas). 2020 June;37:1-2.
Mason TM, Tofthagen CS, Buck HG. Complicated grief: risk factors, protective factors, and interventions. J Soc Work End Life Palliat Care. 2020 Mar 31:1-24.
Nascimento FL. Cemitério x novo coronavírus: impactos da COVID-19 na saúde pública e coletiva dos mortos e dos vivos. Boletim de Conjuntura (BOCA). 2020 Apr;2(4):1-9. Souza CP, Souza AM. Funeral rituals in the process of mourning: meaning and functions. Psic Teor Pesq. 2019 Jul;35:1-7.
Santos S, Crespo C, Canavarro MC, Kazak AE. Family rituals when children have cancer: a qualitative study. J Fam Psychol. 2018 Aug;32(5):643-53.


Deixe um comentário