Não vou contar a História da Psiquiatria, Jurandir Freire da Costa fez isso de modo magistral em seu livro A Historia da Psiquiatria Brasileira(2007), que acho que até mesmo muitos psiquiatras desconhecem.
Esse campo da Medicina tão desafiador atravessa hoje um grave problema: A CRISE.
O dicionário eletrônico Houaiss, o substantivo crise deriva do latim crisis, que sugere algo relativo a um momento de decisão e de mudança, e do grego Krisi, que sentido para uma ação ou para a faculdade de distinguir, decidir, separar e julgar. Por extensão, conclui-se que o conceito de crise comporta, paradoxalmente, a qualidade de risco e perigo e, simultaneamente, faz referência a uma oportunidade que se coloca ao sujeito, com potência de transformação.
As mudanças que temos hoje são rápidas, complexas e múltiplas. A Psiquiatria e a Psicologia, ambas lembradas de modo comemorativo em Agosto estão na fase de “front”, na frente da guerra da insanidade e desequilíbrios.
Outrora os laços inter-humanos; que teciam uma rede de proteção e segurança para a qual era digno o investimento de tempo e esforço, hoje se transformou em modos frágeis e temporários de cuidado em um ambiente de incertezas no espaço social.
A vida se converteu, fundamentalmente, em um projeto individual orientado por escolhas cada vez mais distantes do interesse em participar e interferir na vida pública. Algumas famílias, as poucas unidas se ilharam, ou as que estão dilaceradas se dispersaram, formando sujeitos: solitários, nômades, errantes e existencialistas.
Não tem como ignorar a importância da dinâmica familiar entre tantos fatores , na produção e permanência do transtorno mental ou ainda, quanto a convivência com a doença mental pode ter transformado em doentias as relações familiares.
Não existe hoje uma convergência familiar para quem tem um grave Transtorno Mental, parece que os medicamentos precisam “fazer milagres”. As pessoas que buscam os Psiquiatras, por vezes, não querem alterar: alimentação, hábitos, sedentarismo, relacionamentos, vícios, casamento, trabalhos… por vezes nocivos, mas desejam resultado medicamentoso. IMPOSSÍVEL!!!
Como ajudar quem tem forte, crônico ou agudo sofrimento psíquico? Alias o que é sofrimento psíquico?
Na lógica contemporânea do sofrimento, não há mais nada a ser revelado, pois nada mais está escondido. Este é, em essência, o sentido dado por Hannah Arendt aos tempos sombrio. Isto diz respeito à psicanálise, cuja representação social a reconhece apensa como uma prática do desvelamento.
O que chega para o Psiquiatra? Um corpo doente e uma mente pior ainda, bem diferente da premissa de Juvenal no livro Sátiras: Mens sana in corpore sano (“mente sã em corpo são”).
Medo, angústia, solidão, raiva, insegurança, desequilíbrio, loucura, delírio, alucinação, paranóia, desesperança se trata em com qual profissional? A “bucha” cai no colo do Psiquiatra.
“Herdamos um mundo despedaçado por zonas de incoerente falta de consideração pelos séculos anteriores”, disse Bollas (2015). Temos traumas e muitos acontecimentos que fragilizaram o Ego, o Self e excesso de excitações pulsionais desenfreadas que atacam nossa integridade psíquica.
A história interna e pessoa se rivaliza com os ataques externos, qual a pior? Nossos tempos são atípicos.
Acho fundamental citar Lacan, mesmo sendo objeto de ódio de alguns. No Seminário 4- As relações de Objeto- 1956, p.57:
“ Por ocasião de um momento particularmente crítico, quando nenhuma via de outra natureza está aberta para a solução do problema, a FOBIA constitui um apelo por socorro, o apelo a um elemento simbólico singular.”
Estamos na era das instabilidades, mudanças velozes, incontinências políticas, econômicas, sociais e espirituais. Quando não é o medo paralisante e mobilizador temos a raiva e a violência explodindo nas relações, no trânsito e nas disputas esportivas ou territoriais-Guerras.
As pessoas se entorpecem nos vícios, se iludem nos chás alucinógenos que devasta a mente e a deixa suscetível a seres malignos, isso sem contar o álcool, como cantou Cazusa “Mais uma dose? É claro que eu estou a fim. A noite nunca tem fim. Por que que a gente é assim?” Agora beber não se restringe a noite, é de manhã e à tarde também. Nem vou entrar no mérito de explicar ‘porque agente é assim’, isso fica para um outro texto.
E acho que o pior é lidar com o vazio existencial a falta de sentido da vida na sociedade pós-moderna: suicídio.
Saber da mente, neurônios, hormônios, biologia e hereditariedade dá conta desse turbilhão?
Psiquiatras humanos sobreviventes, guerreiros e idealistas. Nos espaços públicos massacrados com o horror de dezenas de pacientes, as vezes diários, e até centenas mensais. Como assim? Quem é de ferro? Adoecem sim, se fragilizam com a atuação mais problemática, confusa e hermética da medicina: a mente e o comportamento humano.
Conforme Albert |Camus (1941/1989, p.141), o limite de suportabilidade provoca dois tipos de atos: desistir de viver ou suprassumir a dor em ato criativo. Nesta mesma linha pensa André Breton(1924/2001) quando diz ”precisa ter ido ao fundo da dor humana, ter descoberto suas estranhas capacidades, para poder saudar com o mesmo dom ilimitado de si mesmo aquilo que vale a pena viver” (p.153)
Se cuidem!!! Busquem respostas, transcendam, dar para ir além dos conhecimentos científicos reducionistas. Falem, conversem, não se isolem. Vocês possuem todo meu respeito e admiração.


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