Em meio a testes, comparações, dúvidas, invalidações, questionamentos e desejo de chocar e impressionar assim começa o relacionamento do Borderline na psicoterapia. Desconfia, omite, encobre a dúvida, o medo, a raiva a insubordinação e a rebeldia de seu coração.
Os insubmissos natos resistem a autoridade, e mesmo com todo afeto o psicoterapeuta é uma autoridade. Serpenteando sua instabilidade, vazios e desesperos ele vai falando de pessoas, coisas, animais, desejos, cultura, arte, viagens, romances, amigos, festas ou quando depressivo procura justificativas para suas falências. A falta de energia quando caídos e dificuldade de persistência em atingir objetivos sozinhos vem com muito eufemismo.
Com contumácia esse Transtorno tem alguns traços definidos: a) A instabilidade emocional, afetiva e nas relações b) a indefinição do diagnóstico, visto por vezes vir acompanhado de outros, o campeão de comorbidades c) a dificuldade de assumir, ou enxergar, o caminho da recuperação.
Ao mesmo tempo que sobre, desce, mesmo quando empolgado tem horas que sente tédio, deseja e repudia, ama e odeia, quer perto de pois quer os ventos leve para longe. Vinculação é um drama. Ama bichos e animais, tem carinho para dar e vender, mas falta amor próprio e confiança no amanhã e em seu poder interno, força de vontade e fixação de parâmetros e objetivos.
A impulsividade, agressividade, medo de abandono e o desejo de ter autonomia contrasta como a solidão e depressão. Viva os altos e baixos.
Freud, em “Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade” , afirma que as pulsões sexuais percorrem um caminho sinuoso de desenvolvimento para então alcançar o “primado da zona genital”. Antes de este ser alcançado a pulsão pode ficar fixada em alguma organização pré-genital, como a oral e a anal, às quais retornará quando ocorrer uma repressão, o que caracterizaria uma regressão. A pessoa com esse Transtorno tem um comportamento regredido, quer social, afetivo, profissional, sexual ou na relação com o alimento, propenso a obesidade. Muito comum homossexual masculino serem Borderline ou os Bissexual.
Estudiosos como Hegenberg afirmou que tentativas ocorreram para definir transtornos que não se enquadravam nas neuroses e nem nas psicoses, digo-lhe como atualização, alguns no eixo da perversão, são diagnosticados como Narcisistas, mas são Borderline Perverso: manipuladores, controladores, sexualidade vasada, omitindo medo de separação e de ficarem sozinhos. Homens diagnosticados com TPB são mais propensos a ter comorbidade do eixo II com distúrbios antissociais, paranóicos e narcisistas , enquanto mulheres com histriônicos.
O termo borderline surgiu com Sterm na década de 1940, porém é importante considerar a singularidade do sujeito, tomando cuidado para não cometer generalizações, apesar disto ocorrer quando se trata de teoria. Para a compreensão do borderline é preciso uma relação com o outro, uma relação a dois e o encontro com o analista precisa se dar enquanto pessoa e não somente em uma qualidade transferencial. Winnicott se refere ao borderline algumas vezes, porém esteve voltado à constituição do indivíduo enquanto ser humano, ou seja, a formação do self.
O borderline se sente incompleto, ou seja, seu self ainda não está constituído, consequentemente surgem as vivências de vazio e falta de sentido de vida. Isso se dá pelo ambiente não suficientemente bom na infância. Desta forma, o ambiente é importante, pois promove a relação entre as pessoas. É justamente o que o borderline necessita, alguém que o acompanhe na constituição de seu self.
Hegenberg discorre sobre o TPB na visão psicanalítica apresentando as seguintes características: angústia de separação (dificuldade de se separar do outro); dilema com a identidade (dificuldade de constituir sua subjetividade); clivagem (divisão em bom e mau); questão do narcisismo (visualiza suas próprias necessidades); agressividade; impulsividade e; suicídio. Estas podem ser observadas no dia-a-dia das pessoas que apresentam esse transtorno, assim como na literatura.
Hoje os Tratamentos mais eficientes não dependem da Técnica, mas sim de quem está aplicando a Técnica, muito comum o envolvimento profissional/paciente, por isso cuidado como a sedução, vitimização…dessa personalidade.
Acho pertinente a visão winnicottiana, o tratamento de pacientes com TPB consiste no analista acompanhar o paciente na constituição de seu self , que se dá através do holding que é o provimento materno no estádio da maternagem. O analista tem que sustentar o paciente, não invadi-lo e acompanha-lo na construção de sua subjetividade, por meio da regressão a um estado que permita essa constituição. Isso é demorado.
Acho rico o livro de Walter Trinca sobre a visualização do analista, ele fala que nas sessões podemos e devemos encarar o que vem em nossa mente coo sendo parte do setting, uma vez ao escutar as lamúrias indefinidas e dantescas de uma paciente com esse Transtorno visualizei: Um pai caminhando por uma estrada longa e tentando segurar na mão de uma menininha(tipo uns 4 anos) e a menina tirando a mãozinha querendo ficar desconectada dele, não querendo ficar presa(mãos dadas), correr sozinha em meio ao perigo do percurso, com carros e pessoas desconhecidas e sem saber o caminho para chegar em casa. Esse é o dilema do Borderline, a desobediência, indisciplina e desejo de soltura, é óbvio velado por um um falso self.
Referância:
Freud S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Freud S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago; 1996.
Hegenberg M. Borderline. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2007


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