Personalidade com comorbidade: desafio da clínica

Acho de suma importância a Etiologia, ou o estudo das causas e origens das doenças, para isso a Psicanalise é um instrumento eficiente. Está crescendo o número de pessoas na clínica com comorbidades, mais de uma psicopatologia. E isso é possível. Um dos maiores desafios é a combinação e Transtorno Bipolar com Transtorno Borderline.

O que esses Transtornos tem um comum? O Borderline assim como o Bipolar tem mudança de humor, o Borderline mais repentino, emoções instáveis, momentos de pânico, angústia, pessimismo descargas afetivas impulsivas, insegurança sobre sua própria personalidade. E em alguns momentos de serenidade, são imprevisíveis. A instabilidade emocional parece ser Bipolar, contudo o Bipolar tem fases mais definidas.

Enquanto que a origem do TAB-Transtorno Bipolar é mais genética, hormonal e pela desmodulação mental(química) o Transtorno Borderline está mais calcado em problemas psicossociais e ambientais: problemas na maternagem, lar conflituoso, mães narcisistas, pai tíbios e ausente, abusos físicos, psicológicos, sexuais e vulnerabilidades na infância, lar instável,  assim como negligencia e superproteção.

Esses micro traumas de discussões e desavenças marcam e modificam todo o potencial de harmonia, segurança e bem estar das pessoas, uma vez que ainda nos formamos por uma família, por isso um indivíduo com Transtorno Bipolar pode também ter Transtorno Borderline.

Os Borderlines se relacionam intensamente com a sociedade, mas vivenciam rupturas onde apresentam medo de estarem sozinhas no mundo, logo são instáveis e vazias, o seja, formam-se relações intensas e dependentes que se tornam relações manipulativas e desvalorizadoras.

Só que na adolescência teremos nos Borderlines uma difusão de identidade, baseada no predomínio de defesas dissociativas, ou seja, omitem sue personalidade, mentem muito e falso self. Enquanto que o TAB é mais assumido, imponente, arrogante por assim dizer e enfrenta seus conflitos, geralmente saem da casa dos pais bem novos. Em ambos os casos o uso de Drogas ilícita é comum, alguns problemas alimentares, dismorfia corporal, sono e com vínculos.

Porque das Drogas? A Gênese deste problema ela psicanálise está na impossibilidade das mães serem “suficientemente boas” e na falha paterna.  

Segundo Jordão e Ramires (2010) muitos estudos sobre Borderlines, tem discutido o papel de situações traumáticas e a maioria delas podem vir da família;

“ …abuso sexual e físico, história de prolongadas situações de precoses e perdas parentais(como divórcio, doenças , viagens), exposição e atitudes parentais dominadoras, frias afetivamente e sádicas, marcadas por negligencia emocional, superproteção e controle excessivo.”(Jordão, Ramires, 2010, p.424-425)

Esse ambiente lava a desregulação emocional e a impulsividade. Fazendo com que o indivíduo comece a ter comportamentos não funcionais, déficits e conflitos psicossociais. Os Borderlines são hipersensíveis, podendo perceber afeições nos outros, segundo alguns estudos, bem mais rápido. Se apegam rápido e as vezes a pessoas equivocadas, tem baixa autoestima, co -dependencia emocional e sofrimento psíquico.  Alguns foram na infância ridicularizados, ignorados, invalidados em suas emoções e sentimentos.

Além a questão biossocial, segundo Carneiro (2004) com exame de Neuroimagem mostrou funcionamento do cérebro diferente PET-Tomografia por Emissão de Pósitrons, o córtex cingulador anterior, região moduladora do controle afetivo, bem como outras áreas do córtex pré-frontal, apresentam um metabolismo basal alterado, segundo Carneiro, 2004, p.67.

Existe uma redução do volume da amígdala e do hipocampo nos pacientes com personalidade borderline, segundo Carneiro, 2004.

As fragilidades emocionais e nas vinculações afetivas são defesas primitivas, dificuldades no processo de individuação e  identidade, entre outras.

Os Bipolares com traços Borderlines. Após a adolescência, na fase produtiva 24-35 anos na maturidade os sintomas diminuem, contudo fica o Transtorno Bipolar, mais biológico e neurológico  e crônico e que se agrava com a diminuição hormonal, quer na mulher, quer no homem.  Caracterizado pela genética, sensibilidade a crítica, dificuldade de administrar o estresse, pressão, limites e pouca capacidade adaptativa. Mais de 60% dos pacientes com Transtornos Bipolar apresentam comorbidades com outros diagnósticos: abuso de substâncias, perturbações da Ansiedade e do Transtorno Borderline, além de ideação suicida.

Os Bipolares são melhores profissionalmente e em muitos aspectos levam vantagens sobre os Borderlines.

O tempo de variação do humor é o que definira o que predomina, Outra coisa pessoas como Transtorno Bipolar possuem uma identidade bem definida, por isso mesmo diante de todo o sofrimento e confusão, conseguem defender o que querem e insistir(mesmo que de forma maníaca) até conseguir aquilo, já o Borderline é menos definida, tem problemas no autodirecionamento, e no funcionamento interpessoal e na impulsividade.

Apoio, compreensão, acolhimento, para a desregulação emocional de ambos os estados, além da perspicácia que procuram amparo é para tentar “ser livre” mesmo sendo-os dependentes.

Como estamos, as vezes, ao lado e convivendo com aqueles que escamoteiam suas vulnerabilidades fiquemos mais interessados em pessoas: teimosas, difíceis e com resistências que possamos ter paciência e ver além das fragilidades.

Onde mora a verdade do homem? A verdade, não é aquilo que se demonstra. Se neste terreno e não no outro, as laranjeiras desenvolvem sólidas raízes e se carregam de frutos, este terreno aí é a verdade das laranjeiras. Se esta religião, se a cultura, se esta escala de valores, se esta forma de atividade e não outras tais favorecem no homem esta plenitude, libertam nele um grão-senhor que ele ignorava, é que esta escola de valores, esta cultura , esta forma de atividade são a verdade do homem. A lógica? Que ela se vire para dar conta da vida.” Saint-Exupery, A.  terra dos homens, p.159

Referência Bibliográfica:

Carneiro, L.L.F.-Borderline: no limite entre a loucura e a razão. Ciência e Cognição, v,3 p. 66-68, 2004.

Jordão, A.B.;Ramires V.R.R. Adolescencia e organização de personalidade borderline: caracterização dos vínculos afetivos. Paidéia, v.20,n47,p.421-430,Set/dez.2010.

Foto por Tara Winstead em Pexels.com

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Oi! Sou Sônia Augusta, psicóloga pela UniFMU, Pós-Graduada em Arteterapia, Gerontologia e Saúde do Idoso e Acupuntura. Me aperfeiçoei em temas como AT-Atendimento Terapêutico, Saúde Mental em Hospital Geral (Unifesp), Coaching de Emagrecimento, Psicossomática, Biofísica aplicada à Saúde. Sou pesquisadora nas áreas de Medicina Integrativa, Psicanálise, Longevidade, Nutrologia e Medicina Tradicional Chinesa.

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