Pornografia

O enorme consumo sistemático ou ocasional de pornografia, acima de tudo, de vídeo pornográfico, com diversas nuances perversas, que vão do sadomasoquismo a pedofilia; das visitas de certos sites de reputação duvidosa da internet, talvez no escritório, ‘por acaso’, por curiosidade ou tédio, ou a noite por volúpia quer sozinhos ou acompanhados.

Isso tudo em clima de tolerância da violência distraída e desapaixonada de nossa era; no pano de fundo da pseudonormalidade estatística feita por todos, ou pelo menos por muitos.

Freud sempre nos lembra que sadismo e masoquismo, amor e ódio, voyeurismo e exibicionismo constituem pares ambivalentes e nesta era da internet, bidimensional e do espetáculo, assistir a pornografia pode ser uma ‘opção’ de satisfação, embora para alguns puramente para a descarga da excitação. Se a ansiedade é um mal do século essa “descarga” cresce no mesmo exponencial.

Nesse caso, as solicitações pornográficas servem para dar vazão às tensões internas, sobretudo agressivas, pois o acesso ao universo fantasmático está, por algum motivo, bloqueado ou proibido. Sem comunicação o homem se ilha, distancia-se de relacionamentos significativos, profundos e saudáveis(não precisa ser apenas sexual), o lado B, a sombra, precisa sair e acha seu caminho.

Quando o apelo à pornografia é a única possibilidade de satisfação, quando o sujeito não dispõe de recursos psíquicos para vivenciar numa mesma relação o erotismo e o afeto, a relação de objeto é eliminada.

O encontro com o outro, agencia de encontro ou parceiros(as) é parcializado, desumanizado, sendo o parceiro sexual relegado à condição de anonimato, sem vínculo e sem afetividade.

Por outro lado, o material pornográfico tem vida curta, pois tudo aquilo cuja única função é promover a excitação torna-se facilmente enfadonho, o que leva à busca de novas ‘pornografias’ para apoiar a ‘nova’ excitação que surgirá (a pulsão é uma força constante) (CECARELLI, 2011).

A excitação sexual que a pornografia encontra tem semelhanças com a questão da masturbação: embora essa atividade sexual possa ser realizada sem a presença de outro, esse outro dá suporte às fantasias masturbatórias.

Importante fazer alusão a dois textos em que Freud discute a forma de amar dos homens: Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910) e Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912). Neles o autor trabalha as correntes afetiva e sensual no investimento amoroso empreendido pelos homens.

Freud ([1912] 1974) separa a corrente afetiva da sensual, a partir da análise empreendida da impotência sexual masculina, um sintoma que seria referente à escolha do objeto empreendida e as ligações de ternura e depreciação ao objeto.

Nesses dois textos ele argumenta que os homens em sua maioria não conseguem unir o amor (afeto) e o desejo (sensual) no mesmo objeto.

Quando existem sentimentos de ternura em relação ao objeto e sua supervalorização psíquica, os desejos sexuais masculinos tendem a ser mais fracos.

Quando, ao contrário, há forte ligação libidinal (sensual) com o objeto, as fontes de ternura tendem a não existir. Então, a ternura estaria ligada à supervalorização do objeto, enquanto o erotismo estaria ligado a sua depreciação.

Quando ocorre uma superestimação da mulher, a tendência é o enfraquecimento do desejo, enquanto a depreciação psíquica do objeto é uma condição para emergência do desejo. Isso evidencia que o desejo; paixão, e o amor; carinho e afeto são diferentes.

Com a Pós-Modernidade, diferenças significativas no manejo da vida sexual consolidaram-se e colocaram em xeque a eficácia do método psicanalítico em dar conta do sofrimento subjetivo. A repressão do sexual já não tem o mesmo peso de outros tempos, apesar de ainda ser um dos pilares que sustentam a organização do psiquismo e da sociedade. O sujeito deve abdicar de certas satisfações para poder ingressar na cultura e fazer parte da civilização. Em certa medida, esse postulado é atemporal.

O acesso à pornografia, por exemplo, não somente se desenvolveu, mas banalizou-se. O que é desejado na vida do homem comum deve ser adquirido em questão de instantes, inviabilizando o tempo de espera e de frustração. A sexualidade tornou-se recreativa e até mesmo imperativa. Não é difícil supor que esse panorama facilite o aumento de soluções adictivas.

A pornografia está subordinada a nova moral sexual, que recrimina a repressão e na era do vale tudo, permissividade e satisfação dos desejos são prioridades. O caminho das soluções perversas, na medida em que as expressões da sexualidade vêm sendo estereotipadas: em nome do politicamente correto, estamos assistindo a uma verdadeira “patologização da normalidade” (CECCARELLI, 2011).

Uma das saídas para essa situação é a pornografia.

Referências:

CECCARELLI, P. A pornografia e o ocidente. Portugal: Revista (In)visível, v. 1, p. 25-34, 2011.        

FREUD, S. Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna (1908). In: ______. “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos (1906-1908). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 169-186. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 9).         

FREUD, S. Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (contribuições à psicologia do amor II) (1912). In: ______. Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos (1910 [1909]). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 185-195. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 11).         

Uma resposta para “Pornografia”.

  1. muito obrigada estava precisando desse material e veio numa hora oportuna. Estou com um caso desse nas mãos e o material abriu novos caminhos

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Oi! Sou Sônia Augusta, psicóloga pela UniFMU, Pós-Graduada em Arteterapia, Gerontologia e Saúde do Idoso e Acupuntura. Me aperfeiçoei em temas como AT-Atendimento Terapêutico, Saúde Mental em Hospital Geral (Unifesp), Coaching de Emagrecimento, Psicossomática, Biofísica aplicada à Saúde. Sou pesquisadora nas áreas de Medicina Integrativa, Psicanálise, Longevidade, Nutrologia e Medicina Tradicional Chinesa.

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