LUTO

Relutei muito em escrever sobre esse tema por mais reincidente que ele seja na clínica e em nossas vidas. Falar de luto é falar de perda, dor, sofrimento, aflição, mudanças, ausências e adaptações.

Acho que os poetas são privilegiados em representar o que sentimos:

Quando você foi embora

Fez-se noite em meu viver

Forte eu sou, mas não tem jeito

Hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha

E nem é meu este lugar

Estou só e não resisto

Muito tenho pra falar...”  Travessia – Milton Nascimento

Tudo fica escuro, estranho, acordar parece um pesadelo e não cabe no peito todas as emoções, indignações, raiva e inconformidade pela perda. Separar de quem amamos é desnatural, por mais que alguns tente intelectualmente eleger que a distância ou a exploração de outros países seja prazerosa(viver como imigrante) a separação do país, lar, parentes e amigos DOE.

Por mais doente e degenerativo que seja o estado de quem amamos (e cansados estamos de cuidar) não queremos ficar sem, queremos permanecer com quem amamos.

As duas teoria e conceitos da psicologia que associo ao luto é da teoria do Apego de  J. Bowlby (1989) ele considerou o apego como um mecanismo básico dos seres humanos. Ou seja, é um comportamento biologicamente programado, como o mecanismo de alimentação e da sexualidade, e é considerado como um sistema de controle homeostático, que funciona dentro de um contexto de outros sistemas de controle comportamentais.

Fomos criados para nos apegar e esse papel; do apego, na vida dos seres humanos envolve o conhecimento de que uma figura de apego está disponível e oferece respostas, proporcionando um sentimento de segurança que é fortificador da relação. Isso pode ser real ou imaginário, as vezes damos mais do que recebemos kkk, contudo o nosso amor sendo direcionado a quem amamos nos faz bem.

O que acontece na Morte? Na separação? O desabamento do Trauma, vem do grego que significa ferida, ou furar, o que designa uma ferida com efração, sim perder é violento é um arrombamento para a nossa psique. Sempre desde nova amei música e Elis Regina era minha predileta, cantava as músicas dela dia e noite, quando ela morreu eu perguntei para minha mãe: “ E agora?” foi difícil elaborar e o arrombo que ela deixou nunca foi preenchido.

 “…E o coração de quem ama

Fica faltando um pedaço

Que nem a Lua minguando

Que nem o meu nos seus braços.” Faltando um pedaço – Djavan

Sim o furo do trauma deixa um buraco em nosso coração, em nossa rotina. A saudade esmaga e maltrata. O vínculo afetivo é o que nos sustenta, mas distribuir e remaneja-lo exige tempo, primeiro a aceitação e depois o trabalho de continuar  nunca desistir.

“…Vou seguindo pela vida

Me esquecendo de você

Eu não quero mais a morte

Tenho muito o que viver

Vou querer amar de novo

E se não der, não vou sofrer

Já não sonho, hoje faço

Com meu braço o meu viver.” Travessia – Milton Nascimento

Sim o trauma tem cura, a psicanalise garante esse processo, mesmo em uma categoria transcendental da ligação: é preciso ligar o que do campo da experiência está desordenado ou caótico, mesmo que essa tentativa de ligar implique desprazer. Para quem está nessa dolorosa travessia nunca se esqueça desse texto: ” Jeová está perto dos que tem coração quebrantado, ele salva os que tem espírito esmagado. ” Salmos 34:18

Os desejos, as cores, os sons, a vida retornam quando bem reorganizada e nos fixa no sentimento de continuar e continuar a nos preencher e nunca parar.

2 respostas para “LUTO”.

  1. Quem consegue explicar a dor do luto? Parabéns por mostrar como isso é difícil. Como dito, a morte não é natural. É por isso que é tão difícil não só descrever, mas atravessar esse período que pra alguns não passa nunca. E na verdade não passa completamente. Se um dia nos esquecermos dos mortos, que sentido faria a ressurreição? Apenas convivemos com os pedaços que faltam. “Travessia” do Milton Nascimento e “Faltando um pedaço” de Djavan, muito bem citados são só tentativas de descrever o que a falta de alguém nos faz. Obrigada por se aproximar um pouco mais dessa descrição sobre o luto. Pode ser que seja impossível de descrever como de fato é, até porque pra cada um é diferente. Perder alguém que me fez mal, me traz um sentimento diferente de quem perdeu a mesma pessoa mas foi beneficiado por ela. Enfim, mais importante do que descrever o luto é vivê-lo com sabedoria.

    Curtir

Deixe um comentário

Oi! Sou Sônia Augusta, psicóloga pela UniFMU, Pós-Graduada em Arteterapia, Gerontologia e Saúde do Idoso e Acupuntura. Me aperfeiçoei em temas como AT-Atendimento Terapêutico, Saúde Mental em Hospital Geral (Unifesp), Coaching de Emagrecimento, Psicossomática, Biofísica aplicada à Saúde. Sou pesquisadora nas áreas de Medicina Integrativa, Psicanálise, Longevidade, Nutrologia e Medicina Tradicional Chinesa.

Bem vindo (a) ao meu Blog!

Me siga:

Categorias

Descubra mais sobre Psicóloga Sônia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo